sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

MINISTRA CARMEM LÚCIA: É CARA OU COROA?


Abertos os grandiosos portais da mais alta Corte de Justiça do país, guardiã da Constituição Federal por essência e por destino, discursos e personalidades por lá desfilaram. Sua presidente, dentre outros, manifestou-se afirmando:

“(...) O que é inadmissível e inaceitável é desacatar a Justiça, agravá-la ou agredi-la.(...)”

Nossa ilustre conterrânea certamente não estava se referindo ao descumprimento, por parte de Renan Calheiros, da decisão que o afastou da presidência do Senado em dezembro de 2016.

Certamente não se referira ao descumprimento, também pelo Senado, da decisão que determinou o afastamento ao também conterrâneo Aécio Neves em junho de 2017. O fato foi noticiado pela Folha de S. Paulo pela manchete “Senado ignora decisão do STF de afastar Aécio Neves do mandato.”

Será a que desacato a Magistrada se referiu?

No atual momento político todas as instituições encontram-se sob bombardeio, ora fruto de indignação popular,  ora fruto de manobras políticas, ora fruto das defesas de particulares interesses.

Com o Poder Judiciário não é diferente Só que compete a ele, em medida extrema, a proteção do arcabouço normativo vigente. No caso do STF, mais ainda. Cabe-lhe também ser fiscal e vigia insone da mais alta instância da legislação pátria – a Constituição Federal.

A nossa CF88 sustenta-se, em particular, por pilares inalienáveis - ou pétreos, como queiram –, sendo um deles o da liberdade irrestrita de opinião.  Nos exatos termos do inciso IX de sei artigo 5º: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; Fora disto, só a escuridão da ditadura. Mas a respeitável Ministra aparentemente esqueceu-se da intensidade e da profundidade desses ditames legais.

Afinal, Meritíssima, falar mal é também falar.

Ambas as versões estão solenemente acobertadas pelo direito de livre expressão. Nos casos em que tal exercício afrontar outros direitos também garantidos, a legislação oferece as figuras da injúria, da calúnia ou da difamação, às vezes acompanhadas da responsabilização civil.

Às mais altas autoridades compete a tarefa, às vezes difícil, de compatibilizar sentimentos pessoais e função pública, impedindo que os primeiros maculem o segundo.


São as duas faces da moeda que, jogada ao léu, às vezes dá cara, às vezes coroa. A grandeza do homem público está também em entender que no lanço da moeda, às vezes a cara reflete seu entendimento, mas coroa é imposta por seu cargo, ou vice versa. Aí, desvirá-la é sua obrigação, ainda que seus pensamentos tenham que se quedar ocultos na face que ficou oculta sobre a mesa.


domingo, 17 de dezembro de 2017

AS AVENTURAS DE BITCOIN NO REINO DA FANTASIA



Para falarmos dos Bitcoins precisamos, antes, considerar outros termos típicos da ciência econômica, quais sejam: BOLHA, PIRÂMIDE e RISCO.

Por bolha entendemos uma situação de euforia e de ganhos financeiros acompanhados da sensação de boas oportunidades, mas que não possui o devido lastro. Ou seja, assemelha-se a uma bolha de sabão, que é colorida, exuberante, apresenta grande expansão, mas é débil, delicada e quando estoura possui apenas ar em seu interior. A bolha, portanto, é fruto de pura especulação.

 Por pirâmide entendemos o golpe financeiro tantas vezes aplicado em nosso país. É um aparente investimento que costuma oferecer condições mirabolantes, altos rendimentos e uma ilusão de garantia representada pela promessa de ganhos mínimos consideráveis. O nome advém da situação dos participantes, que formam uma espécie de pirâmide à medida em que as operações aumentam, criando uma grande base que vai se estreitando até o topo, onde se encontram os verdadeiros ganhadores. Ou seja, os criadores e os primeiros investidores, que ficam no alto, ganham bastante dinheiro. À medida em que nos aproximamos da base, os prejuízos tendem a aumentar. Os últimos “investidores” têm os maiores prejuízos, chegando a perder absolutamente tudo o que aplicaram. Como exemplos tivemos no Brasil as operações com boi gordo, com avestruzes, containers para locação e muitos outros.

Quanto ao risco, é uma condição sempre presente em investimentos não conservadores. Os fundos em geral, aí incluídos os cambiais, de ações e de commodities, bem como as operações com dólar físico, mercados futuros, derivativos e tantos outros, têm rentabilidades, prazos e condições diversas, mas em comum possuem o risco. Também este é variável de intensidade, variando entre os moderados (lastreados parcialmente por garantias, como o hedge) e os arrojados ou agressivos, onde o perigo de perda é grande, sem qualquer lastro. Óbvio que maior risco representa consequentemente a possibilidade de grandes lucros ou amargos prejuízos.

Bitcoin é uma das espécies de criptomoedas, mas não é a mais recente. Diversas vieram antes dela, mas jamais atingiram seu grau de demanda. Trata-se de moeda virtual que não possui controladores, nação, depósito material ou mesmo produção física. Coisa de Internet, que também é uma rede imensa, complexa, repleta de trilhas e desvios, mas que não existe materialmente. As compras e vendas dos bitcoins são efetuadas por operadores virtuais, em transações eletrônicas que impõem um preço para compra e outro para a venda (como se faz nas operações com moedas estrangeiras).

As operações são bem simples: o saldo em moeda nacional existente em conta bancária do investidor é trocado pela moeda eletrônica na cotação de compra do momento, constituindo-se em sua carteira virtual e vendida posteriormente (a critério do titular), pela cotação de venda. No primeiro momento, o investidor emite uma ordem de compra e no segundo (quando desejar), emite uma ordem de venda.

Para controlar seus investimentos, bem como os respectivos créditos e débitos e as cotações virtuais, o investidor maneja seu dashboard, espécie de extrato virtual amigável e de simples operacionalidade.

E os riscos dos bitcoins? São muitos e absolutamente imprevisíveis.

Trata-se de operações sem a menor fiscalização do Estado, dos bancos centrais, das autoridades monetárias e de valores mobiliários, sem endereço e sem qualquer controle por parte dos investidores. As fantásticas valorizações que vêm ocorrendo nesse mercado podem refletir:

- O "comportamento de manada" (que é o aporte de multidões de aplicadores incentivados por outros anteriores – “maria vai com as outras”) e que não reflete uma situação real de oferta e demanda, mas apenas entusiasmo repentino e às vezes passageiro.

- Forte entrada de capitais de operações criminosas, como tráfico de drogas, de armas, de pessoas e outras, em busca de condições propícias para sua “lavagem de dinheiro”. Não é, portanto, companhia recomendável para investidores verdadeiros.

- Desejo de grupos terroristas esconderem e “lavarem” seus capitais, bem como transferi-los mais facilmente para compra de armas, explosivos e pagamento de integrantes. Já houve comprovação (inclusive com prisão de suspeitos) de que o Exército Islâmico vem utilizando os bitcoins para esse fim.

- Uma imensa bolha financeira não sustentada pelo mercado formal e que pode explodir a qualquer momento, deprimindo fortemente suas cotações. Consideremos que o comércio físico ou mesmo o e-commerce ainda não aceita em sua totalidade os bitcoins como forma de pagamento, mesmo com a crise de vendas que enfrenta atualmente.

Enfim, é um mercado financeiro virtual que se posta no mesmo caminho dos bancos on line que já operam fartamente do Brasil e no resto do mundo. É tendência que veio para ficar, até mesmo com o encolhimento das instituições que operam fisicamente.

As moedas virtuais continuarão a existir e certamente se integrarão ao mercado de comércio e indústria, convertendo-se em verdadeiros meios de pagamento e de investimento. Farão parte do mundo e da vida de cada um de nós no futuro próximo. Para isto deverão ser regulamentadas e efetivamente fiscalizadas pelo Estado e por quem de direito.

Por enquanto são um imenso risco. Coisa para profissionais e entendedores.

Amadores só servem, nesta situação, de massa de manobra para a obtenção de gordos lucros pelas raposas de plantão.


Uma fantasia que pode custar muito caro!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

EUA TRANSFEREM EMBAIXADA PARA JERUSALÉM. E NÓS COM ISTO???



Perguntem a alguém qual a capital de Israel e muitos dirão de imediato: TEL AVIV.

Muitos não sabem, entretanto, que Jerusalém é a verdadeira capital política do país desde 1950 (pouco após a criação do Estado de Israel). Assim foi declarada após os primeiros embates militares entre judeus e árabes.

Tel Aviv é, na realidade, o centro financeiro (como São Paulo é para o Brasil). Entretanto, por razões políticas e estratégicas as embaixadas lá se situam, e não na sede política.

Jerusalém (assim como Israel de uma forma geral) é um território extremamente estratégico. Próximo a diversas nações árabes, potencial ou abertamente hostis, tem seu território oriental há muito reivindicado pelo povo palestino. Nenhuma conceituação melhor para lá que barril de pólvora cujo rastilho já se acendeu várias vezes e cuja explosão ameaça a cada momento, apenas alternando-se entre maior ou menor risco.

É uma cidade única no mundo por ser disputada avidamente por três religiões distintas, CRISTIANISMO, JUDAÍSMO e ISLAMISMO. Destruída, reerguida, atacada e renascida no correr da história, vem sendo objeto de disputas políticas e militares há séculos.

Divide-se informalmente em distritos (ou bairros) habitados por integrantes das três religiões, que mantêm conflitos explícitos ou velados todo o tempo. A região de domínio judeu é onde fica, dentre outros, o Muro das Lamentações (local onde Abraão ofereceu seu filho ao sacrifício, conforme a Bíblia). A região cristã contempla o local onde estaria o Santo Sepulcro, o Calvário e outros locais sagrados. Na parte muçulmana fica a mesquita de Al-Aqsa, um dos monumentos sagrados para os muçulmanos e foco de grandes peregrinações de fiéis.

Jerusalém é um exemplo bem acabado do paradoxo religioso: a religião, criada sob o fundamento do religare latino é objeto hoje de tanta desunião e tantas guerras. Quantos já morreram por suas crenças e quantos já mataram em nome delas? Com toda a certeza Jeová, Deus ou Allah não aprovam isto (ou não aprovariam, como quiserem alguns).

O domínio institucional e militar é dividido entre os judeus e os palestinos, que também reivindicam o local para a capital de seu Estado em formação. Hoje mais de 100 nações independentes reconhecem a Autoridade Palestina como ente político, em um caminhar que se originou com a OLP e que fatalmente levará à instituição de um Estado independente, ainda que após muito derramamento de sangue.

Em meio a esse caldeirão fervilhante de interesses políticos, econômicos, estratégicos e religiosos aparece Trump com mais uma das suas: a transferência da embaixada americana (atualmente em Tel Aviv) para Jerusalém.

O presidente norte americano tem sido forçado a engolir de forma enviesada o líder norte-coreano Kim Jong-un, que o enfrenta sistematicamente. A supremacia da maior potência bélica do planeta tem sido provocada pela versão asiática do “Rato que Ruge” (nenhuma comparação entre Peter Sellers e o líder coreano, obviamente). Talvez seja esse o motivo para a emblemática transferência da representação diplomática.

Em termos práticos, aparentemente significaria apenas uma medida administrativa. Em termos geopolíticos, entretanto, equivale à oficial declaração dos EUA admitindo Jerusalém como território sob a soberania israelense, em detrimento dos anseios da comunidade árabe internacional. Representa também a tomada de posição do país mais poderoso do mundo no conflito árabe-israelense, após reiteradas tentativas – inclusive de presidentes anteriores – no sentido da paz e da coabitação entre as partes em litígio.

Tomar parte abertamente em favor de uma das faces do conflito, em qualquer situação que se apresente, é renunciar à tentativa de acordo e abandonar a paz como meta. Um simples ato como este tomado por Trump pode desencadear mais conflitos, centenas de mortes e até mesmo uma nova guerra na região.
Esquece-se ele ainda que o mundo globalizado (estratégia diuturnamente defendida pelo capitalismo americano) também internacionaliza conflitos. Que o digam o Estado Islâmico e a al-Qaeda, que em sequência às intervenções militares  na África e na Ásia expandem suas agressões à Europa e aos EUA, na esteira do frissom econômico-financeiro global.

E nós com isto?

Tudo temos a ver em um planeta que transmite ao vivo as agressões entre potências, reverbera pela comunicação eletrônica ameaças e vírus e, na ocorrência de uma guerra de grandes proporções, colocar-nos-á no interior do cenário bélico. Já passou o tempo em que os atentados eram só um problema das partes envolvidas. Hoje a bomba detonada Avenue d'Lèna em Paris  ou o atentado que atinge o metrô em Londres lançam seus estilhaços no  sofá do brasileiro que assiste ao programa jornalístico noturno.

Não dá mais para considerarmos o que acontece do outro lado do mundo como “coisa de estrangeiro”. É problema nosso e, se não contribuímos diretamente para suas causas, poderemos participar ativamente de suas consequências...

  

terça-feira, 7 de novembro de 2017

ATÉ TU, ELIZABETH! – A farra dos Paradise Papers e das operações Offshore



Já há muito conhecemos os paraísos fiscais espalhados pelo mundo afora (Luxemburgo, Ilhas Cayman, Singapura, Costa Rica, Ilhas Salomão, Liechtenstein, San Marino, Panamá, Uruguai e tantas outras nações). Servem para a condução de operações offshore, seja sob a forma de contas bancárias, seja pela fundação de empresas (que muitas vezes nada fabricam ou vendem).

A denominação paraísos fiscais decorre do fato de que os valores aplicados ou investidos não são tributados, ou seja, estão livres de impostos e outros custos similares. Um sonho que pode se tornar real: o dinheiro rende como se estivesse no mercado financeiro normal, mas o aplicador está livre das garras do Estado. É um contínuo tilintar de dólares que deveriam abastecer atividades como educação, saúde segurança ou transportes e que desaguam nos bolsos de ávidos investidores.   

Mas não é só isto. As instituições (e os países) não costumam perguntar sobre a origem dos recursos financeiros. Assim, pode-se deduzir que há dinheiro de simples aplicações em fuga de tributos, bem como receitas do tráfico, da manutenção financeira de grupos paramilitares, da corrupção política, enfim, um balaio de gatos nominado em dólares.

Quanto às empresas offshore, teoricamente são investimentos realizados naquele país (paraíso fiscal) por não residentes, ou seja, titulares que as comandam e residem em outras nações. Parecem até multinacionais ou filiais internacionais de empresas como Nestlé, Petrobrás, Google, Johnson & Johnson, Microsoft e tantas outras. Mas não é isto. Há fundamentais diferenças. As offshore não têm atividade econômica, ou seja, nada fabricam, nada vendem e nada produzem, salvo operações destinadas a dissimular o trânsito financeiro. Costumam movimentar milhões de dólares instaladas em modestas salas ou prédios que não fazem jus ao grande volume de recursos aplicados. Estão ali para “limpar” dinheiro escuso ou para fugir à tributação devida nos países de origem (ou ambas simultaneamente).

Há escritórios especializados em conduzir tais operações, como o Mossack Fonseca, que esteve por trás do escândalo dos Panama Papers ocorrido em 2016 e que deixou às claras tais operações abastecidas por dinheiro da corrupção brasileira, conforme apurado pela Lava Jato.

A criativa engenharia envolve até mesmo as chamadas shell companies, empresas fantasmas que não contam sequer com prédios ou funcionários. Apenas um registro contábil e administrativo e um número de conta em banco, apenas fachada. Por ali transitam verdadeiras fortunas, tudo controlado por um esquema milimetricamente coordenado por escritórios como o Mossak ou, no caso dos Paradise Papers, também a Appleby.

Consideremos ainda que a titularidade das offshore é muitas vezes escamoteada em uma rede de interligações e de domínios acionários intrincados que, mesmo sob a proteção do sigilo oferecido, não deixam à mostra os verdadeiros donos.

Agora temos o escândalo dos Paradise Papers, que fez o Panama Papers parecer uma brincadeira. Foram divulgados alguns dos mais de 13.000.000 de arquivos de operações mantidas principalmente em Bermudas e Cingapura, contendo investimentos de pessoas como secretários do governo Trump, do governo canadense, uma lista imensa de políticos das mais diversas nacionalidades, jogadores de futebol, empresas como Nike e Uber, celebridades como Madona, Bono e muitos outros.  No meio dessa leva de privilegiados milionários e bilionários – pasmem – foi descoberta nada menos Elizabeth II, emblemática rainha da Inglaterra.

É muito sugestivo o fato de que uma rainha busque sonegar tributos que deveriam ser recolhidos ao próprio reino que governa... Francamente, soberana!!!

Discutir a legalidade ou não de tais empresas passa necessariamente pela discussão da moralidade envolvida. Até onde sonegar pode ser considerado um direito? A defesa da rentabilidade dos capitais pode superar o direito dos cidadãos utilizarem os recursos oriundos da tributação?  

Por estas e outras a presença de uma rainha em tão desconfortável lista é algo especial e que demonstra a escala de valores que domina a sociedade humana.

Mais informações sobre o tema no site dos investigadores do ICIJ – International Consortium of Investigative Journalists, que trouxeram a lume esse escândalo: https://www.icij.org/investigations/paradise-papers/



sábado, 4 de novembro de 2017

The Mountain Between Us



O filme é uma livre adaptação do livro homônimo, do escritor Charles Martin, relatando as desventuras de dois passageiros de um monomotor que se acidenta sobre geladas montanhas canadenses. A trama se desenvolve misturando a luta pela sobrevivência e a expectativa de romance entre os personagens. Tentando proporcionar alguma graça ao filme, um cachorro participa de todas as desventuras como terceiro personagem. Nem o animal salva a produção das piadas sem graça jogadas no decorrer da história.

A atriz Kate Winslet, no papel da jornalista Alex Martins e dona do olhar mais poderoso de Hollywood é atriz premiadíssima. Britânica de nascimento, foi indicada ao Oscar por sete vezes, tendo feito jus à estatueta por “O Leitor”, com sua brilhante e inesquecível atuação. Além disto, venceu um Emmy (pela série “Midred Pierce”, ou “Almas em Suplício”), quatro Globos de Ouro (“Revolucionary Road”, “O Leitor”, “Midred Pierce” e “Steve Jobs”), além de diversos outros.

Idris Elba, na pele do neurocirurgião dr Ben Bass, também britânico, não possui um currículo tão brilhante, mas foi premiado principalmente pelo Globo de Ouro pela minissérie “Luther” e participou do extraordinário “Beasts of no Nations”, da grife Netflix, onde atua como destacado protagonista.

A história é banal e já foi abordada em diversos outros filmes. A direção opta por clichês que repetem outras situações já vistas e revistas anteriormente. O espectador muitas vezes tem a impressão de já ter assistido àquelas cenas de montanha. A fotografia não apresentou nada especial, a não ser a natural beleza das paisagens, enfocadas em tomadas amplas e sucessivas. A natureza é o show do filme, por si só. Neste particular, melhor assistirmos aos episódios de National Geografic.

O suspense, quase ausente da produção, tem rápida abordagem na cena envolvendo o ataque de uma puma, único momento de tensão na película. Melhores momentos animais, entretanto, vide Animal Planet.

O desempenho dos atores é surpreendentemente fraco, dando-nos a impressão de que não houve “química” entre eles. O romance não decolou entre dois atores pouco à vontade um com o outro, mesmo na pouco convincente cena de sexo.

O que dizer da ridícula cena final? Talvez para um filme adolescente feito para a Sessão da Tarde, mas nunca para essa produção.

Não perca seu tempo. Procure coisa melhor no canal Netflix.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Meus primeiros 500 anos...



Tenho duas certidões de nascimento, graças a Deus. A primeira, arquivada no Cartório do Registro Civil de Pessoas Naturais da minha querida Rio Casca. A outra, bem mais antiga, esteve afixada na porta da capela da cidade de Lutherstadt Wittenberg na Alemanha, em 31 de outubro de 1517. Na primeira, o Oficial do Cartório registrou minha genealogia próxima e outros dados civis. Na segunda Lutero listou os 95 princípios norteadores de uma revolucionária visão da cristandade.

Os protestantes nascemos da Reforma luterana e os presbiterianos abraçamos também – e em especial – a visão calvinista, eis que alcançados pela extensão e pela importância do Batismo, dentre outras princípios presentes nas Institutas.

Importa refletirmos sobre o que significa sermos protestantes, já transcorrido meio século de nossa gênese. Importa ainda relembrarmos que a Reforma foi um ato de pura subversão das ideias reinantes. Os reformadores praticaram atos de guerrilha, foram queimados, excomungados, presos ou torturados, mas mudaram o mundo.

Lutero, Calvino, Wesley, Zwinglio, Farel, Knox e tantos outros afrontaram a poderosa Igreja Católica e o poder político a ela vinculado, criando alternativas e combatendo a exploração dos fiéis, a venda de indulgências e da vida eterna, desmistificando a absoluta soberania dos prelados que atuavam falsamente em nome de Deus.

Copiaram eles o supremo ato de enfrentamento praticado outro subversivo que, quase sozinho, lutou contra o Império Romano, pagou com a vida, mas espalhou sua doutrina pelos quatro cantos do mundo.  Cristo é o filho de Deus, que lutou contra poderosos e enfrentou o poder instituído e quase inabalável. Assim o fez em nome do Pai.

Viveu a simplicidade entre os mais simples e jamais se utilizou de suas prerrogativas para engrandecer-se perante os demais.
Defendeu e respeitou as mulheres quando ninguém o fazia.
Jamais se curvou perante o poder, a não ser à força, quando vilipendiado por seus torturadores.

Suas vestes não eram costuradas com fios de ouro e sobre sua cabeça não repousava qualquer coroa ou solidéu.

Não tinha títulos de nobreza ou de grandeza, era apenas Jesus.

O Santo Graal possivelmente era de tosca madeira e a mesa da Santa Ceia somente uma laje de pedra.

Jamais vendeu seus milagres ou pedaços de suas vestes.

Nunca condenou seus desafetos ao fogo ou à expiação.

Essa igreja de Cristo é a verdadeira igreja da Reforma. Muitos se esqueceram disto e mantêm templos que se intitulam evangélicos, para praticar iniquidades mais semelhantes ao catolicismo medieval que à nova visão religiosa que alegadamente professam. Não merecem o título que ostentam.

Intitular-se protestante e vender areias e águas bentas por humanos impuros é heresia. Falar em nome do Senhor e promover espetáculos de exploração da fé pública é puro pecado. Uma coisa é certa: não são dignos da Reforma e, portanto, não são protestantes. Mais se assemelham a lobos sob trajes de cordeiros sob o comando de alguém que, certamente, não é o Pai.

É como lemos em 1 Pedro 3:3-4: “O vosso adorno não seja o enfeite exterior, como as tranças dos cabelos, o uso de jóias de ouro, ou o luxo dos vestidos, mas seja o do íntimo do coração, no incorruptível traje de um espírito manso e tranqüilo, que és, para que permaneçam as coisas.”

A Reforma cindiu o povo de Deus, rompendo a aparente união cristã que até então era mantida, porém ao largo da palavra de Deus. É como disse Lutero: “É melhor ser dividido pela verdade que unido pelo erro”.

Sigamos, cindidos porém buscando a união dos filhos de Deus. Uma condição, porém, é imprescindível: que o caminho pelos próximos 500 anos seja na trilha da verdade e ao amparo da fé, ornados pela simplicidade e atentos unicamente à Palavra.


Amém.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

FIRST THEY KILLED MY FATHER


Mais uma produção de qualidade da Netflix, desta vez sob a direção de Angelina Jolie. É o quinto longa metragem que assina (“A place in time” em 2007, “In the land of blood and honey”, este traduzido no Brasil como “Na terra de amor e ódio” em 2011, “Invencível”, em 2014, “À beira mar”, em que contracena com Brad Pitt).

Jolie tem um grande histórico cinematográfico. É filha de John Voight (Oscar por “Amargo Regresso” e participação no clássico “Midnight Cowboy”, além de “Lara Croft”, “Pearl Harbor”, “O Campeão”, “Missão Impossível” e outros). Participou de dezenas de filmes, tendo alguns deles conquistado grande sucesso de público (“Salt”, “Malévola”, ”O turista”, “A troca”, “Sr. e sra. Smith”, “Lara Croft” e outros), tornando-se uma das campeãs de faturamento em Hollywood.

Desta vez traz um drama histórico com ares de documentário retratando a autobiografia contada por Loung Ung em seu livro homônimo.

O contexto histórico é o período da cruel ditadura de Pol Pot, líder do Khmer Vermelho (anghkar), que dominou o Camboja entre 1975 e 1979, quando foram assassinadas mais de dois milhões de pessoas, ou cerca de 25% da população do país.

O Khmer tentou implantar no país uma forma grotesca e absurda de reforma agrária em um figurino de implantação fadada ao fracasso.  Mas foi tentada pelo esvaziamento das cidades e brutal extermínio de todos os que tinham qualquer relação com o antigo regime. As comunidades de trabalho agrícola forçado se disseminaram pelo país, bem como o sofrimento dos cambojanos, particularmente aqueles que ostentavam algum traço ocidental (professores, funcionários públicos, profissionais liberais, ou simplesmente quem falasse línguas estrangeiras ou cultivasse ciências ou letras).

A família foi considerada proscrita, sendo substituída pelo Estado e as crianças incentivadas a entregar pais e familiares para prisão ou execução.

Não obstante se denominasse comunista, era contrário à doutrina marxista, tendo combinado suas próprias teses filosóficas com alguns princípios maoístas, espelhando-se também no forçado êxodo rural da Revolução Cultural chinesa do final dos anos 60.

Pol Pot, não obstante mentor intelectual e principal responsável pelo genocídio cambojano, jamais chegou a ser julgado. Morreu antes que o Tribunal Penal Internacional pudesse condená-lo por crimes contra a humanidade.

O filme, que foi escolhido pelo Camboja para representa-lo no Oscar, relata esse período de brutalidade, aos olhos de uma criança cuja família foi compulsoriamente levada para trabalhos no campo.


Com ares de documentário, a película não objetiva ser registro  histórico, mas fundamentar-se no sentimento da protagonista, uma criança de 5 anos envolvida nos horrores do absurdo regime que se instalara no Camboja. É emocional, traduzindo os fatos pelos olhos da menina autora.

A aparente lentidão da narrativa e a apresentação homeopática de  cenas sangrentas e violentas, típicas de um filme como este, o aproximam da visão infantil que permeia a narrativa. Emolduram também o cansaço, a desilusão e a falta de perspectivas dos cambojanos escravizados pelo regime. A técnica, entretanto, leva ao cansaço o expectador em alguns momentos, fazendo-o ressentir-se da ausência de um pouco mais de vibração.

É inevitável a comparação com outro filme, o clássico “Gritos do Silêncio”, de 1984. Tratando da mesma temática – a ditadura do Khmer Vermelho -, tem enfoque diverso. Nele a narrativa parte de personagem adulto e envolvido politicamente na trama. É também uma grande produção. Desnecessário estabelecermos critérios comparativos entre ambos. Ao contrário, são complementares a meu ver. Importante ressaltarmos, entretanto, que apresenta uma direção mais aguda, com cenas mais pungentes, duras e às vezes sangrentas. Como era de se esperar, tem um clímax, característica comum em dramas cinematográficos.


“First” é um filme que deve ser assistido por suas inúmeras qualidades, ainda que não possa ser considerado uma obra definitiva sobre o tema. Alguns críticos apostam nele com o vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2018. Tem grandes chances. Veja o trailer;

https://www.youtube.com/watch?v=uS3Vp_quGCw