terça-feira, 7 de novembro de 2017

ATÉ TU, ELIZABETH! – A farra dos Paradise Papers e das operações Offshore



Já há muito conhecemos os paraísos fiscais espalhados pelo mundo afora (Luxemburgo, Ilhas Cayman, Singapura, Costa Rica, Ilhas Salomão, Liechtenstein, San Marino, Panamá, Uruguai e tantas outras nações). Servem para a condução de operações offshore, seja sob a forma de contas bancárias, seja pela fundação de empresas (que muitas vezes nada fabricam ou vendem).

A denominação paraísos fiscais decorre do fato de que os valores aplicados ou investidos não são tributados, ou seja, estão livres de impostos e outros custos similares. Um sonho que pode se tornar real: o dinheiro rende como se estivesse no mercado financeiro normal, mas o aplicador está livre das garras do Estado. É um contínuo tilintar de dólares que deveriam abastecer atividades como educação, saúde segurança ou transportes e que desaguam nos bolsos de ávidos investidores.   

Mas não é só isto. As instituições (e os países) não costumam perguntar sobre a origem dos recursos financeiros. Assim, pode-se deduzir que há dinheiro de simples aplicações em fuga de tributos, bem como receitas do tráfico, da manutenção financeira de grupos paramilitares, da corrupção política, enfim, um balaio de gatos nominado em dólares.

Quanto às empresas offshore, teoricamente são investimentos realizados naquele país (paraíso fiscal) por não residentes, ou seja, titulares que as comandam e residem em outras nações. Parecem até multinacionais ou filiais internacionais de empresas como Nestlé, Petrobrás, Google, Johnson & Johnson, Microsoft e tantas outras. Mas não é isto. Há fundamentais diferenças. As offshore não têm atividade econômica, ou seja, nada fabricam, nada vendem e nada produzem, salvo operações destinadas a dissimular o trânsito financeiro. Costumam movimentar milhões de dólares instaladas em modestas salas ou prédios que não fazem jus ao grande volume de recursos aplicados. Estão ali para “limpar” dinheiro escuso ou para fugir à tributação devida nos países de origem (ou ambas simultaneamente).

Há escritórios especializados em conduzir tais operações, como o Mossack Fonseca, que esteve por trás do escândalo dos Panama Papers ocorrido em 2016 e que deixou às claras tais operações abastecidas por dinheiro da corrupção brasileira, conforme apurado pela Lava Jato.

A criativa engenharia envolve até mesmo as chamadas shell companies, empresas fantasmas que não contam sequer com prédios ou funcionários. Apenas um registro contábil e administrativo e um número de conta em banco, apenas fachada. Por ali transitam verdadeiras fortunas, tudo controlado por um esquema milimetricamente coordenado por escritórios como o Mossak ou, no caso dos Paradise Papers, também a Appleby.

Consideremos ainda que a titularidade das offshore é muitas vezes escamoteada em uma rede de interligações e de domínios acionários intrincados que, mesmo sob a proteção do sigilo oferecido, não deixam à mostra os verdadeiros donos.

Agora temos o escândalo dos Paradise Papers, que fez o Panama Papers parecer uma brincadeira. Foram divulgados alguns dos mais de 13.000.000 de arquivos de operações mantidas principalmente em Bermudas e Cingapura, contendo investimentos de pessoas como secretários do governo Trump, do governo canadense, uma lista imensa de políticos das mais diversas nacionalidades, jogadores de futebol, empresas como Nike e Uber, celebridades como Madona, Bono e muitos outros.  No meio dessa leva de privilegiados milionários e bilionários – pasmem – foi descoberta nada menos Elizabeth II, emblemática rainha da Inglaterra.

É muito sugestivo o fato de que uma rainha busque sonegar tributos que deveriam ser recolhidos ao próprio reino que governa... Francamente, soberana!!!

Discutir a legalidade ou não de tais empresas passa necessariamente pela discussão da moralidade envolvida. Até onde sonegar pode ser considerado um direito? A defesa da rentabilidade dos capitais pode superar o direito dos cidadãos utilizarem os recursos oriundos da tributação?  

Por estas e outras a presença de uma rainha em tão desconfortável lista é algo especial e que demonstra a escala de valores que domina a sociedade humana.

Mais informações sobre o tema no site dos investigadores do ICIJ – International Consortium of Investigative Journalists, que trouxeram a lume esse escândalo: https://www.icij.org/investigations/paradise-papers/



sábado, 4 de novembro de 2017

The Mountain Between Us



O filme é uma livre adaptação do livro homônimo, do escritor Charles Martin, relatando as desventuras de dois passageiros de um monomotor que se acidenta sobre geladas montanhas canadenses. A trama se desenvolve misturando a luta pela sobrevivência e a expectativa de romance entre os personagens. Tentando proporcionar alguma graça ao filme, um cachorro participa de todas as desventuras como terceiro personagem. Nem o animal salva a produção das piadas sem graça jogadas no decorrer da história.

A atriz Kate Winslet, no papel da jornalista Alex Martins e dona do olhar mais poderoso de Hollywood é atriz premiadíssima. Britânica de nascimento, foi indicada ao Oscar por sete vezes, tendo feito jus à estatueta por “O Leitor”, com sua brilhante e inesquecível atuação. Além disto, venceu um Emmy (pela série “Midred Pierce”, ou “Almas em Suplício”), quatro Globos de Ouro (“Revolucionary Road”, “O Leitor”, “Midred Pierce” e “Steve Jobs”), além de diversos outros.

Idris Elba, na pele do neurocirurgião dr Ben Bass, também britânico, não possui um currículo tão brilhante, mas foi premiado principalmente pelo Globo de Ouro pela minissérie “Luther” e participou do extraordinário “Beasts of no Nations”, da grife Netflix, onde atua como destacado protagonista.

A história é banal e já foi abordada em diversos outros filmes. A direção opta por clichês que repetem outras situações já vistas e revistas anteriormente. O espectador muitas vezes tem a impressão de já ter assistido àquelas cenas de montanha. A fotografia não apresentou nada especial, a não ser a natural beleza das paisagens, enfocadas em tomadas amplas e sucessivas. A natureza é o show do filme, por si só. Neste particular, melhor assistirmos aos episódios de National Geografic.

O suspense, quase ausente da produção, tem rápida abordagem na cena envolvendo o ataque de uma puma, único momento de tensão na película. Melhores momentos animais, entretanto, vide Animal Planet.

O desempenho dos atores é surpreendentemente fraco, dando-nos a impressão de que não houve “química” entre eles. O romance não decolou entre dois atores pouco à vontade um com o outro, mesmo na pouco convincente cena de sexo.

O que dizer da ridícula cena final? Talvez para um filme adolescente feito para a Sessão da Tarde, mas nunca para essa produção.

Não perca seu tempo. Procure coisa melhor no canal Netflix.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Meus primeiros 500 anos...



Tenho duas certidões de nascimento, graças a Deus. A primeira, arquivada no Cartório do Registro Civil de Pessoas Naturais da minha querida Rio Casca. A outra, bem mais antiga, esteve afixada na porta da capela da cidade de Lutherstadt Wittenberg na Alemanha, em 31 de outubro de 1517. Na primeira, o Oficial do Cartório registrou minha genealogia próxima e outros dados civis. Na segunda Lutero listou os 95 princípios norteadores de uma revolucionária visão da cristandade.

Os protestantes nascemos da Reforma luterana e os presbiterianos abraçamos também – e em especial – a visão calvinista, eis que alcançados pela extensão e pela importância do Batismo, dentre outras princípios presentes nas Institutas.

Importa refletirmos sobre o que significa sermos protestantes, já transcorrido meio século de nossa gênese. Importa ainda relembrarmos que a Reforma foi um ato de pura subversão das ideias reinantes. Os reformadores praticaram atos de guerrilha, foram queimados, excomungados, presos ou torturados, mas mudaram o mundo.

Lutero, Calvino, Wesley, Zwinglio, Farel, Knox e tantos outros afrontaram a poderosa Igreja Católica e o poder político a ela vinculado, criando alternativas e combatendo a exploração dos fiéis, a venda de indulgências e da vida eterna, desmistificando a absoluta soberania dos prelados que atuavam falsamente em nome de Deus.

Copiaram eles o supremo ato de enfrentamento praticado outro subversivo que, quase sozinho, lutou contra o Império Romano, pagou com a vida, mas espalhou sua doutrina pelos quatro cantos do mundo.  Cristo é o filho de Deus, que lutou contra poderosos e enfrentou o poder instituído e quase inabalável. Assim o fez em nome do Pai.

Viveu a simplicidade entre os mais simples e jamais se utilizou de suas prerrogativas para engrandecer-se perante os demais.
Defendeu e respeitou as mulheres quando ninguém o fazia.
Jamais se curvou perante o poder, a não ser à força, quando vilipendiado por seus torturadores.

Suas vestes não eram costuradas com fios de ouro e sobre sua cabeça não repousava qualquer coroa ou solidéu.

Não tinha títulos de nobreza ou de grandeza, era apenas Jesus.

O Santo Graal possivelmente era de tosca madeira e a mesa da Santa Ceia somente uma laje de pedra.

Jamais vendeu seus milagres ou pedaços de suas vestes.

Nunca condenou seus desafetos ao fogo ou à expiação.

Essa igreja de Cristo é a verdadeira igreja da Reforma. Muitos se esqueceram disto e mantêm templos que se intitulam evangélicos, para praticar iniquidades mais semelhantes ao catolicismo medieval que à nova visão religiosa que alegadamente professam. Não merecem o título que ostentam.

Intitular-se protestante e vender areias e águas bentas por humanos impuros é heresia. Falar em nome do Senhor e promover espetáculos de exploração da fé pública é puro pecado. Uma coisa é certa: não são dignos da Reforma e, portanto, não são protestantes. Mais se assemelham a lobos sob trajes de cordeiros sob o comando de alguém que, certamente, não é o Pai.

É como lemos em 1 Pedro 3:3-4: “O vosso adorno não seja o enfeite exterior, como as tranças dos cabelos, o uso de jóias de ouro, ou o luxo dos vestidos, mas seja o do íntimo do coração, no incorruptível traje de um espírito manso e tranqüilo, que és, para que permaneçam as coisas.”

A Reforma cindiu o povo de Deus, rompendo a aparente união cristã que até então era mantida, porém ao largo da palavra de Deus. É como disse Lutero: “É melhor ser dividido pela verdade que unido pelo erro”.

Sigamos, cindidos porém buscando a união dos filhos de Deus. Uma condição, porém, é imprescindível: que o caminho pelos próximos 500 anos seja na trilha da verdade e ao amparo da fé, ornados pela simplicidade e atentos unicamente à Palavra.


Amém.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

FIRST THEY KILLED MY FATHER


Mais uma produção de qualidade da Netflix, desta vez sob a direção de Angelina Jolie. É o quinto longa metragem que assina (“A place in time” em 2007, “In the land of blood and honey”, este traduzido no Brasil como “Na terra de amor e ódio” em 2011, “Invencível”, em 2014, “À beira mar”, em que contracena com Brad Pitt).

Jolie tem um grande histórico cinematográfico. É filha de John Voight (Oscar por “Amargo Regresso” e participação no clássico “Midnight Cowboy”, além de “Lara Croft”, “Pearl Harbor”, “O Campeão”, “Missão Impossível” e outros). Participou de dezenas de filmes, tendo alguns deles conquistado grande sucesso de público (“Salt”, “Malévola”, ”O turista”, “A troca”, “Sr. e sra. Smith”, “Lara Croft” e outros), tornando-se uma das campeãs de faturamento em Hollywood.

Desta vez traz um drama histórico com ares de documentário retratando a autobiografia contada por Loung Ung em seu livro homônimo.

O contexto histórico é o período da cruel ditadura de Pol Pot, líder do Khmer Vermelho (anghkar), que dominou o Camboja entre 1975 e 1979, quando foram assassinadas mais de dois milhões de pessoas, ou cerca de 25% da população do país.

O Khmer tentou implantar no país uma forma grotesca e absurda de reforma agrária em um figurino de implantação fadada ao fracasso.  Mas foi tentada pelo esvaziamento das cidades e brutal extermínio de todos os que tinham qualquer relação com o antigo regime. As comunidades de trabalho agrícola forçado se disseminaram pelo país, bem como o sofrimento dos cambojanos, particularmente aqueles que ostentavam algum traço ocidental (professores, funcionários públicos, profissionais liberais, ou simplesmente quem falasse línguas estrangeiras ou cultivasse ciências ou letras).

A família foi considerada proscrita, sendo substituída pelo Estado e as crianças incentivadas a entregar pais e familiares para prisão ou execução.

Não obstante se denominasse comunista, era contrário à doutrina marxista, tendo combinado suas próprias teses filosóficas com alguns princípios maoístas, espelhando-se também no forçado êxodo rural da Revolução Cultural chinesa do final dos anos 60.

Pol Pot, não obstante mentor intelectual e principal responsável pelo genocídio cambojano, jamais chegou a ser julgado. Morreu antes que o Tribunal Penal Internacional pudesse condená-lo por crimes contra a humanidade.

O filme, que foi escolhido pelo Camboja para representa-lo no Oscar, relata esse período de brutalidade, aos olhos de uma criança cuja família foi compulsoriamente levada para trabalhos no campo.


Com ares de documentário, a película não objetiva ser registro  histórico, mas fundamentar-se no sentimento da protagonista, uma criança de 5 anos envolvida nos horrores do absurdo regime que se instalara no Camboja. É emocional, traduzindo os fatos pelos olhos da menina autora.

A aparente lentidão da narrativa e a apresentação homeopática de  cenas sangrentas e violentas, típicas de um filme como este, o aproximam da visão infantil que permeia a narrativa. Emolduram também o cansaço, a desilusão e a falta de perspectivas dos cambojanos escravizados pelo regime. A técnica, entretanto, leva ao cansaço o expectador em alguns momentos, fazendo-o ressentir-se da ausência de um pouco mais de vibração.

É inevitável a comparação com outro filme, o clássico “Gritos do Silêncio”, de 1984. Tratando da mesma temática – a ditadura do Khmer Vermelho -, tem enfoque diverso. Nele a narrativa parte de personagem adulto e envolvido politicamente na trama. É também uma grande produção. Desnecessário estabelecermos critérios comparativos entre ambos. Ao contrário, são complementares a meu ver. Importante ressaltarmos, entretanto, que apresenta uma direção mais aguda, com cenas mais pungentes, duras e às vezes sangrentas. Como era de se esperar, tem um clímax, característica comum em dramas cinematográficos.


“First” é um filme que deve ser assistido por suas inúmeras qualidades, ainda que não possa ser considerado uma obra definitiva sobre o tema. Alguns críticos apostam nele com o vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2018. Tem grandes chances. Veja o trailer;

https://www.youtube.com/watch?v=uS3Vp_quGCw 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

MÃE! Uma exclamação e muitas interrogações...


“Mãe!” foi um dos filmes mais esperados do ano e certamente o mais polêmico. O elenco brilhante conta com Jennifer Lawrence (Oscar de melhor atriz em 2013 por “O lado bom da vida”, MTV Movie Award, por “Jogos Vorazes”, além de diversos outros), Javier Bardem (Oscar de coadjuvante com brilhantismo em “Onde os fracos não têm vez”, cinco vezes premiado com o Goya e outros), Michelle Pfeiffer (linda e veterana ganhadora do Globo de Ouro por sua atuação em “The Fabulous Baker Boys”) e Ed Harris (Globo de Ouro como melhor coadjuvante em “Truman, o show da vida”, repetindo o feito em “Virada no jogo”).

Tem também direção e roteiro de Darren Aronofsky (Leão de Ouro por “O lutador”, Gotham Awards por “Pi” e outros). Conhecido por seus filmes tidos como controversos e perturbadores, como “Cisne negro”, “Requiem for a dream” e o apedrejado “Noé”.

A crítica especializada tem classificado a obra como thriller psicológico. Os expectadores e a mídia em geral têm atribuído ao roteiro algumas intenções grandiosas. Ora é a história de Deus, incluindo a criação, o Velho e o Novo Testamento, ora é uma denúncia relativa aos maus tratos que dedicamos à mãe natureza. Em um dos cartazes Jennifer encarna imagem similar àquelas utilizadas pela Igreja Católica para representar a mãe de Jesus. Em outro (que gerou tanta polêmica) é alguém parcialmente seviciada, mas que preservou intacto um de seus hemisférios faciais.

Os personagens não têm nome, mas possuem imensa força dramática. Presentes no filme o inusitado, a provocação, o incômodo, a interrogação, a indignação, a penumbra, o cinza, mas não a beleza. O filme não é belo, em certos momentos é feio e tenebroso. Também não é diversão. Em muitas situações é uma pedra no sapato, um zumbido de pernilongo atormentando o expectador. As cenas não estão dispostas em sequência lógica, onde a ação sempre corresponde a uma reação esperada. O filme é inesperado. Caótico às vezes, surrealista sempre. Surpreendente.

Do surrealismo do grande Miró (um de meus pintores prediletos), saiu o “Carnaval do Arlequim”, que é disperso e estonteamente tal qual ”Mãe!”. Para onde olhar na tela em ambas as obras?

De René Magritte o provocativo “Os Amantes”, tão simples e tão intenso. Tão inesperado, mas tão poderoso!

De Aronofsky percebemos que “Mãe!” é um grito ecoando no subjetivismo do autor, tão surrealista como poderia ser. Já vimos antes coisa semelhante do mesmo diretor, em “Cisne Negro”, com Natalie Portman. É intenso, provocativo e cruel, porém mais metódico, mas também um grande filme.

Alguns pontos são bem instigantes: os protagonistas não se referem a parentes ou a experiências anteriores (somente um obscuro incêndio que teria destruído a casa). Eles vivem uma relação de amor, mas encarnam seus antagonismos, crescentes a cada momento do filme. Há uma visível diferença de idade, a mulher vive de sua criatividade, ao construir, redecorar e remontar a residência, o marido (famoso escritor) debate-se com um impenetrável vazio de criatividade. Quando escreve seu poema, e dá início aos momentos mais dramáticos do filme, o texto somente é lido pela Jennifer. Mais antagonismos presentes nela, que tudo faz para reerguer o lar onde viverá seu amor com o marido. Ele é portador de um imenso ego, muito distante do desejo romântico da esposa (que, apesar de linda, nem sexualmente parece lhe interessar). Ela é generosa, ele egoísta. Ela tenta preservar seu amor, ele em tudo é condescendente para viver sua obra.

O Diretor de Fotografia Mathew Libatique (“Homem de Ferro” 1 e 2, “Cowboys e Aliens”, “Cisne Negro” e outros) utiliza-se durante quase todas as tomadas de um pronunciado close no rosto de Jennifer, esquadrinhando suas expressões, angústias e sensações, transformando a atriz em uma segunda tela onde se pode assistir a mesma filmagem. É, entretanto, um recurso incômodo, às vezes irritante, bem ao estilo da obra. Nos momentos em que não foca seu rosto à exaustão, posta-se sobre seu ombro, conduzindo a plateia pelos passos da protagonista. Vamos a reboque de suas sensações.

Dois mistérios no filme: o pó amarelo que inicialmente a atriz ingere misturado à água (este mistério parece destinado a não ser solucionado) e a joia que o escritor mantem quase em altar, a primeira se quebrando no decurso do trama e a segunda obtida como prenúncio de uma nova história. Parece ser um diamante, mas o que será na realidade?

Interessante também o casal Ed Harris – feio, desajeitado e quase tísico –, aparentemente dominado pela mulher, a sempre linda Michelle Pfeiffer, que encontra espaço em ambiente tão soturno para expressar sua propalada sensualidade. Sua personagem é produto da obra: inconstante, contraditória, afável e grosseira, meiga e agressiva. Difícil a um diretor encontrar um par tão heterodoxo como este. Coisa típica do filme, onde os extremos se debatem durante todo o tempo e as centenas de imagens, gritos, sensações e figurantes trazem uma perturbação constante que dá o clima aparentemente projetado pelo roteirista e diretor.

E os filhos do casal Harris-Pfeiffer?  Caim e Abel? Pode ser, mas isto não é tão evidente, uma vez que suas aparições são sucintas e suas histórias, ainda que semelhantes à dupla bíblica, não contêm maiores evidências disto. Podem ser a figuração da violência pessoal homem com homem, tão paralela àquela por nós praticada contra a natureza.

Há também a vertente de que Jennifer seria a personificação da mãe natureza. Hipótese bem plausível a meu ver, não somente por diversas situações pontilhadas ao longo do filme, como também pelas cenas finais. Estas, a meu ver, contêm bastante indicações para essa que poderia ser a real intenção do autor.


E aí? Como interpretamos a obra?

E quem disse que é preciso interpretá-la? Quem disse que há respostas únicas para cada pergunta?

Assim somos nós, homens contraditórios, que acariciamos nossos cãezinhos e sacrificamos nossos bois. Que juramos amor eterno, mas traímos, que tanto amamos a vida, mas a trocamos pelo vil metal. Somos a contradição porque foi isto que fizemos do livre arbítrio que recebemos de presente. Assim como os invasores de todos os matizes (às vezes irreconhecíveis na tela) destruímos tudo o que tocamos. Mas guardamos um singelo vasinho de flor no parapeito da janela...

Pouco me importa se “Mãe!” retrata uma ou outra vertente emprestada pelas diversas opiniões, nem que o ponto de exclamação seja a entrada do pórtico de onde teremos acesso à obra, nem ainda se contém mais mensagens do que deveria em seu tempo de projeção. O que me importa é a sensação obtida com a história, o incômodo produzido pelas imagens ou a sensação confusa e às vezes sufocante que permeia toda a exibição.


Importa-me o que senti e aquilo que invadiu meus pensamentos durante e após a exibição. É um grande filme que merece nossa atenção. Como disse Aronofsky, se alguém quer diversão, assista “Pica-Pau”, mas “... se quiser um passeio de montanha-russa...” assista “Mãe!”

https://www.youtube.com/watch?v=ugn1gqGl7rs

domingo, 10 de setembro de 2017

BINGO, O PALHAÇO SEM ALMA




É um excelente filme. Mais uma produção que nos orgulha e nos faz sentir que, se não temos orçamento para superproduções, temos talento e criatividade para obras de alta qualidade.

O diretor Daniel Rezende, estreante na direção, é detentor de vários prêmios de montagem, tendo assinado filmes como “Diários de Motocicleta”, “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” (1 e 2), “Cidade dos Homens”,  “O Ano em que meus Pais Saíram de Férias”,  “Robocop” (do Padilha) dentre outros. Consegue manter o crescente – e firme – clima dramático que o filme exige. As imagens, coloridas e vibrantes do início, vão dando espaço para momentos sombrios e calculadamente carregados de emoção que marcam o desenrolar da vida de Arlindo Barreto, um dos Bozos, que inspirou a película.

É um drama crescente, permeando toda a exibição, bem como o apogeu e decadência do personagem principal. Da glória ao fundo do poço, Augusto Mendes (pseudônimo de Arlindo utilizado no filme) não conseguiu se desvencilhar do paradoxo que lhe foi gerado pela imensa notoriedade do personagem e absoluto anonimato do artista. Falta de alma, talvez, ou, no mínImo, de suporte psicológico para enfrentar o choque de emoções.

Vladimir Brichta, já conhecido principalmente pelos papéis de humor, cumpre o difícil encargo de apresentar um personagem multifacetado, que comporta nuances de palhaço e de pai, inebriado pelas luzes da ribalta, mas vivendo um conflito de ser ou não ser. Ao mesmo tempo em que é o “Rei das Manhãs”, é barrado em sua própria festa de homenagem. Brichta se desincumbe corretamente do papel, navegando entre o drama e o humor de forma competente. Muitos estranharam, entretanto, não ter sido entregue o papel a Domingos Montagner – recentemente falecido – e que participa rapidamente do trama, mas que é palhaço de circo por formação.  

Leandra Leal também atua com seriedade e competência, emprestando à sua personagem os contornos necessários. Não é um papel complexo, mas tem grande importância no fio condutor da trama. Apesar de seus apenas 35 anos, foi melhor atriz pelo evento Grande Prêmio do Cinema Brasileiro por sua participação no longa “O Lobo Atrás da Porta”. Recebeu também o prémio de melhor direção por “Divinas Divas” no festival de cinema South by Southwest, nos Estados Unidos.

Outro ponto alto do filme é a fotografia do premiado Lula Carvalho, que marcou suas participações em  “Cinema, Aspirinas e Urubus”, “Tropa de Elite”, “Feliz Natal”, “Lavoura Arcaica”, “Budapeste”, “Cidade de Deus” e “Robocop”, além de outros filmes.  Recebeu elogios por alguns planos que incluiu na montagem, como a estréia de Bozo nos palcos e seu posterior abandono (quando, sugestivamente, as portas se fecham e as luzes se apagam, uma a uma).

Bom relembrarmos também de Pedro Bial, que em nenhuma dos poucos momentos de aparição lembra um ator – não é –, mas é a correta representação do ícone Rede Globo, cujo nome foi ocultado, mas a evidência salta aos olhos.

Alguns especialistas dizem que o palhaço não interpreta um personagem. “Ele é quem é”, permitindo que aflore de seu interior o ridículo que lá existe, ofertando-o ao público sob a moldura de suas pantomimas. Tudo isto atrás da menor máscara do mundo, que é seu nariz vermelho, sempre apontado para a plateia, indicando o caminho de sua comunicação com o público. Dizem até que um palhaço não direciona seu olhar, mas sempre movimenta sua cabeça no rumo do objeto de sua atenção naquele momento.

Bingo (ou Bozo) não, ele foi o resultado de um projeto, marca comercial exportada para o mundo a partir dos EUA. Não nasceu das próprias emoções como Carequinha, Arrelia ou Piolin, brotados respectivamente de George Savalla Gomes, Waldemar Seyssell e Abelardo Pinto. Ou mesmo como Domingos Montagner e Companhia La Minima, cujo desempenho podemos admirar no endereço http://www.laminima.com.br/site/.

Bozo foi construído como um produto comercial com direção definida e suporte mercadológico específico. Durante os mais de dez anos em que foi exibido no Brasil, recebeu interpretação de quatorze atores diferentes, todos sob a mesma máscara e atrás do mesmo nariz.

Por isto não tem alma de palhaço. Por isto não é palhaço.

Assista, com ou sem pipoca. É uma produção digna de nosso melhor cinema brasileiro.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O QUASE TERROR DE "IT - A COISA"


Não li o livro que deu origem ao filme, da lavra de Stephen King, um dos maiores autores da literatura de terror e de suspense do mundo.

Conheço outras obras do autor transformadas em filmes, como o clássico “O Iluminado”, referência no cinema suspense, que contou com a marcante atuação de Jack Nicholson e direção do magistral Stanley Kubrick. Há também o aterrorizante “Carrie, a Estranha”, que tem no elenco a grande Julliane Moore e direção de Kimberly Peirce. Isto sem nos esquecermos do emblemático “O Nevoeiro”, que contou também com série televisiva atualmente em cartaz na Netflix, com direção de Frank Darabont. Também o escatológico e enigmático “O Apanhador de Sonhos”, com Morgan Freeman e direção de Lawrence Kasdan. Difícil nos esquecermos de “À Espera de um Milagre”, grande obra cinematográfica (também direção de Darabont), que contou com Tom Hanks e a notável atuação de Michael Clarke Duncan (justamente indicado ao Oscar pelo papel).

Há muitos outros filmes inspirados nas obras de suspense de King muitos deles sucessos de público. No mínimo, filmes comentados e lembrados por cenas insólitas, pelo pavor provocado ou por outros requisitos especiais.

“It – A Coisa”, dirigido por Andres Muschietti, não conta com elenco de renome, mas contém personagens estranhos e alguns quase sem ligação entre si.

Há indicações de pedofilia por parte do pai de Beverly, há também a doentia matrona e um tanto felliniana mãe do garoto asmático, bem como a gangue praticante de violento bullying contra as crianças e até mesmo um policial que transformou o filho em um desequilibrado e mau adolescente. Tudo isto sem conseguir transformar a película em um thriller psicológico. E há também o menininho que abre o filme perseguindo um barquinho de papel, única cena digna de um filme de suspense que se preze.

O palhaço Pennywise, representado pelo sueco e quase desconhecido Bill Skarsgård tem desempenho difícil de ser avaliado em função da abrangente maquiagem e também por ter atuado muito em cenas de escuridão e com foco parcial de seu corpo. O diretor aparentemente desejou marcar o personagem com closes longos e iluminação direcionada à face. Talvez queira inseri-lo na galeria onde estão Freddy Krueger, Chucky, Michael Myers e outros ícones mascarados e maquiados.

É um filme sobre o medo, que mistura cenas de pueril ambientação adolescente e de romantismo piegas com momentos de muito sangue e violência. A direção, entretanto, não permite que as mais horríveis permaneçam à vista do telespectador, derramando-lhe o balde dágua da mudança de cenário. É inconstante, não merecendo ser classificado como filme de horror, mas também não é infantil ou adolescente. É miscelânea de cenas e orientações, onde o clímax muitas vezes é subitamente abortado em detrimento do susto e do medo que poderiam causar à platéia.

O caráter light também está presente em alguns momentos de características dramáticas, mas que chegam a causar risos, o que contraria a essência de um filme de terror.

Bom relembrarmos que a obra literária de Stephen King, em suas mais de mil páginas, enfoca o tema em dois momentos históricos: na infância dos protagonistas e trinta anos depois, com o retorno do palhaço assassino.

O filme, entretanto, só retrata a primeira parte, indicando que será filmada nova sequência em momento futuro.

Achei fraco, destacando, entretanto a cena inicial (do barquinho), como o melhor momento de um verdadeiro suspense. Em resumo, se não houver outra opção no cinema, assista. Não se esqueça da pipoca!

                   https://www.youtube.com/watch?v=dD264ZjfKlk