quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ensina-nos a contar nossos dias
de tal maneira que alcancemos corações sábios
(Salmos 90.12)
FELIZ ANO NOVO para todos nós!!!
É necessário, porém, que em cada um dos dias de 2.010 tenhamos em mente nossos objetivos de vida, nossas metas, nossos sonhos, todos eles formulados conforme as diretrizes de Deus.

O execrável dragão chinês



Sílvio Lanna
No dia de Natal o dissidente político chinês Liu Xiaobo foi condenado a onze anos de prisão. A acusação? Subversão. O crime? Haver defendido procedimentos democráticos na China, envolta, como sabemos, em uma grotesca ditadura que busca manter sob controle a dicotomia capitalismo-comunismo.
A repressão a qualquer atividade que tente arranhar o rigido controle estatal vem proporcionando contínuas agressões aos princípios elementares de direitos humanos na China. Os protestos ocorridos na Praça da Paz Celestial em junho de 1.989, as tentativas de libertação do Tibete, as manifestações quando das Olimpíadas e tantos outros gritos de liberdade e de democracia foram duramente reprimidos pelo governo.
Liu Xiaobo vem exercendo um papel extremamente importante - e muito perigoso - na oposição política ao regime chinês. Sua atual condenação derivou principalmente de haver divulgado junto com outros subscritores a Carta 08, em 12 de dezembro de 2.008, onde defende o fim do regime de partido único (estabelecendo-se democracia na escolha política), a independência do Poder Judiciário (iniciando-se o Estado Democrático de Direito) e a liberdade associativa (garantindo-se o direito de livre expressão). Seu julgamento atendeu aos padrões determinados pelo Comitê Central do Partido Comunista, órgão que exerce o poder no país. Consideremos que lá o Poder Judiciário é hierarquicamente submisso ao Poder Legislativo e este divide com o Executivo as demais funções do Estado.
Com duração de apenas duas horas e meia, o julgamento não pôde ser assistido pela mulher do acusado (que foi mantido em absoluto isolamento desde o mês de março), nem por representantes das organizações internacionais de defesa dos direitos humanos e nem pela imprensa. Foi claramente um julgamento secreto - como é de praxe -, uma vez que o mundo nem sequer teve acesso às teses de acusação e de defesa.
O governo chinês refutou as pressões de países e de instituiçpões democráticas contra tal estado de coisas, alegando tratar-se de inaceitáveis interferências em seus assuntos internos.
O país é campeão mundial em sentenciar e cumprir penas de morte. O mundo considerava uma média anual entre 1.000 e 2.000 casos anuais reconhecidos pelo Estado (sendo que em 2008 teriam sido executadas 1.718 pessoas). Fala-se, porém, que o número estaria subestimado, uma vez que na realidade as mortes ultrapassariam 10.000 indivíduos.
Diversos de crimes são apenados com a execução do criminoso, realizada tradicionalmente com um tiro na nuca. O detalhe macabro é que a bala é cobrada da família. Atualmente tais práticas vêm sendo substituídas pela injeção letal.
O procedimento judicial é simples, rápido e profundamente injusto. Um acusado pode permanecer por três meses ou mais detido sem qualquer acusação, sendo admitida a tortura física e psíquica, bem como a chantagem emocional como formas para que sejam obtidas as confissões. Durante esse período o preso não tem direito a advogados e, em muitas vezes, nem à visita de familiares. Fica isolado do mundo e de seus mais elementares direitos.
Em muitos casos os julgamentos são coletivos e realizados com um mínimo de tempo após o encerramento dos respectivos inquéritos. Nesse momento é possível contratar-se um advogado, mas o tempo é curtíssimo, uma vez que somente às portas da condenação o profissional tem contato com seu cliente. A defesa, na maioria das vezes, resume-se a um pedido de perdão.
O Código Penal chinês elenca como crimes passíveis de aplicação da pena de morte: homicídio, adultério, roubo, formação de quadrilha, esteliuonato, envenenamento de gado, difusão de pornografia, emissão de cheques sem fundos, falsificação de documentos, contrabando, extorsão e tráfico de drogas.
Não são permitidos recursos às sentenças de Primeira Instância nestes casos.
Tudo isto faz com que a "eficiência" dos tribunais seja notável: condenação em quase noventa e cinco por cento dos casos que lhes são submetidos.
No cumprimento da pena a China parece reviver a Idade Média, uma vez que as execuções (que costumam ocorrer 24 horas após a sentença) são públicas, montando-se verdadeiro aparato de exibição para o qual a população é convidada. Tudo é registrado e transmitido pelas emissoras regionais de TV. Os atores principais do deplorável espetáculo são exibidos pelas ruas portando cartazes pendurados no pescoço, onde se registram os os crimes cometidos. Felizmente tais procedimentos vêm sendo gradativamente abandonados pelo país, trocados por métodos "mais humanitários" no cumprimento das sentenças.
Mesmo após a morte os condenados cumprem outra pena: são imediatamente levados a hospitais para retirada compulsória de órgãos para transplantes. Na China comunista-capitalista até isto vira negócio, uma vez que córneas, rins e outras "mercadorias" abastecem o tráfico internacional, tudo com a complacência do governo.
Por falarmos no assunto, ontem foi executado Akmal Shaikh, paquistanês com cidadania britânica, sob acusação de tráfico de drogas. A imprensa internacional relata que seu julgamento durou apenas cinquenta minutos e que foram negados os pedidos de avaliação psiquiátrica efetuados pelo governo inglês e pela família do réu (segundo eles, era o mesmo portador de transtorno bipolar). Nem a intervenção pessoal do primeiro-ministro Gordon Brown foi suficiente para mudar o ritmo e a conclusão do processo penal.
O viés dessa questão, entretanto, é que o mundo se rendeu à China e todos, inclusive os EUA, lhe fazem reverências a todo momento. As vozes que se levantam contra os abusos da ditadura amarela no mais das vezes são protocolares, meras obrigações diplomáticas sem qualquer efeito prático.
Justamente "pela afronta aos direitos humanos e em defesa da liberdade e da democracia" Cuba enfrenta mais de meio século de embargos comerciais, o Vietnam teve que resistir ao poderio bélico norte-americano, o Panamá foi aviltado, o Iraque foi invadido e seu líder foi executado, o Irã sofreu ameaças de destruição, o Afeganistão recebeu milhares de marines invasores, além de tantos outros exemplos da prepotência americana.
Mas com a China é diferente.
- É o maior produtor e o maior consumidor mundial de alimentos, como arroz, milho e suínos.
- É o mercado que oferta a mão-de-obra mais barata do planeta (salários, benefícios e tributos).
- É o maior importador mundial de algumas matérias primas.
- É o maior aplicador mundial em títulos da dívida pública norte-americana, com aproximadamente US$ 1 trilhão investidos.
- É o maior produtor mundial de aço, participando do mercado total com algo em torno dos trinta por cento.
- É uma economia pujante, com previsão de acréscimo de 11% na produção industrial e de 8% do PIB, ambos em 2.010.
- É detentor de cinco por cento da riqueza mundial, considerando-se a soma dos PIBs dos 195 países existentes.
Tudo isto e mais outros índices que revelam a grandiosidade das somas econômico-financeiras envolvidas fazem com que o mundo dispute avidamente entre si uma rodada de negócios com os chineses, um contrato de fornecimento de bens, uma visita de delegação comercial e até mesmo um sorriso amarelo.
A condução política e os abusos cometidos internamente deixam de ser considerados, por submergirem no oceano de interesses capitalistas envolvidos.
Por tudo isto percebemos que o velho dragão chinês continua ativo e mais flamejante que nunca e que não há hoje nenhum cavaleiro andante que tenha coragem de enfrentá-lo.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Poesia do Natal

Paulo Mendes Campos
Há pessoas sensíveis e tímidas como os elefantes: quando a falta de saúde as desequilibra, quando uma doença qualquer vem colocá-las em uma situação de inferioridade em meio ás outras, escondem-se e se fecham em um silêncio de bicho.
Há pessoas antigas, belas e fora de moda como grandes relógios de mogno; não combinam com nossas mobílias de madeira compensada; não cabem em nossos apartamentos, em nossas idéias, em nossas emoções; nós as respeitamos, intimidados, porque os compassos de um relógio antigo marcam dois tempos irreconciliáveis.
Há pessoas lúcidas, devoradas por uma bola de fogo; capazes de uma tristeza seca, sem o consolo de enternecimento; e, no entanto, muitas delas nunca leram sequer uma página de Sthendal; consomem-se sozinhas, nessa deslumbrante e cruel supremacia do espírito.
Há pessoas (e não minto, eu vi) que, ao tomar um bonde, são esmagadas pelas inexoráveis relações cósmicas; a energia é igual à frequência da radiação multiplicada pela constante de Planck; e esta (ó espaços constelados!) é 0000000000000000000000006624.
Há pessoas e pulmões excelentes e sem poesia, que fazem lembrar, todavia, o pobre Anto: em Paris, sentem saudades da pátria; na pátria, sentem saudades de Paris.
Há pessoas maltratadas dia a dia, hora a hora, instante a instante, pela sede de justiça. Ah, como sofrem! Ah, como se crispam! Ah, como desejam a aparição do Nêmesis!
Há pessoas que configuram a terra como um recado que transmite de orelha a orelha. De homem para homem, de coração a coração. Dormem inquietas, e levantam-se ao primeiro apelo da aurora, e vão ver, através do nevoeiro da vidraça, se a verdadeira ave de fogo vem voando.
Há pessoas que morrem tão devagar, tão sem vontade que envenenam o carinho de toda a família. Coitadas!
Há pessoas que ficam doendo com a lembrança de outra pessoa, entra ano, sai ano, virando e revirando o caleidoscópio, olhando como caem e se dispõem as cores e os cristais do sofrimento.
Conheci uma pessoa que fechava os olhos no cinema quando aparecia corrida de cavalos. Tinha uma piedade enorme dos animais.
Há pessoas que têm olhos grandes e assustados como os de santa Luzia, que padeceu o martírio sob o cônsul Pascassiano.
Muitas pessoas. Arthur, que fugiu para a África; Hermano, que perseguiu a baleia; Maria, que entendeu o sentido do sol rubro entre névoas; Jaime, que se correspondia com objetos; Maurício, que descreveu Maria em livro; Vladmir, que foi uma tormenta; Menezes, destroçado na colina; José, João, Antônio... Com elas todas, divido o pão e a triste poesia do Natal, com elas compartilho o meu vinho, o vinho intenso da terra.

Cartão de Natal


João Cabral de Melo Neto

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes;
que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

Dê coração de Natal

Cora Coralina
Enfeite a árvore de sua vida
com guirlandas de gratidão!
Coloque no coração laços de cetim rosa, amarelo, azul, carmim. Decore seu olhar com luzes brilhantes
estendendo as cores em seu semblante.
Essa é sua roupa para o Natal!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal e boas festas a todos os amigos visitantes, com muitas alegrias, paz e união.
Lembremo-nos, porém, dos parabéns e dos agradecimentos ao aniversariante desse dia, razão de nossas comemorações.






terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O reveillon do fim do mundo



Sílvio Lanna
Foram 192 países representados, 12 dias de discussões, muita mídia, muitos protestos. Tudo isto para nada. A COP-15 foi um fracasso total.
Nenhum avanço prático com relação ao Protocolo de Kioto, nenhuma alternativa às suas proposituras, que já atingem doze anos de existência e muito pouco para comemorar.
Avançam os anos, recrudescem os problemas, o abismo se aproxima e as grandes potências mundiais não são capazes de enxergar além de seus próprios interesses econômico-financeiros de curto prazo.
Os EUA tudo fizeram para compensar a incompetência técnica dos altos executivos de alguns de seus maiores brancos e financeiras. No pós-crise do subprime enterraram algo em torno de 1 trilhão de dólares em instituições vítimas de sua própria ganância.
O presidente Obama (que deveria ter a decência de devolver o Nobel da Paz que recebeu) gasta seu tempo tentando fazer no Afeganistão o palco de uma guerra de verdade, aparentemente tentando rivalizar-se com Bush em sua proeza no Iraque. Atua também em defesa do protecionismo comercial, ampliando o buy american e dificultando o acesso das economias emergentes ao mercado comprador americano.
E dá-lhe CO2 na atmosfera.
Que se dane o futuro - deve dizer a seus botões -, o que importa é a grandeza norteamericana. Tudo isto no melhor estilo republicano, comprovando o fato de que os democratas são diferentes, pero no mucho.
Quanto à China, parceira importante dos EUA na responsabilidade pelo fracasso da COP-15, o presidente Hu Jintao também está se lixando para uma fumacinha a mais no céu do planeta. Afinal, é um país de aceleradíssimo crescimento industrial, que vem derrubando seguidas barreiras estatísticas e ampliando enormemente sua participação no mercado mundial.
Tudo às custas do estilo travesti que adotou em sua política interna. Afinal, apresenta-se ainda como uma economia socialista mas, tirando a máscara o que aparece mesmo é uma sólida estrutura capitalista garantida por uma férrea ditadura política.
Quanto à Europa, suas principais nações foram capazes de entregar entre 2 e 3 trilhões de dólares aos irresponsáveis participantes da jogatina americana dos créditos imobiliários. Mas não são capazes de medidas realmente de impacto em defesa do planeta.
Sarkozy até que trouxe seus protestos, mas tudo pareceu mesmo um jogo de cena para consumo interno na França, que vem apurando resultados econômicos insatisfatórios e possui uma opinião pública explosiva.
A Alemanha, ainda às voltas com a problemática integração leste-oeste tem em Angela Merkel uma dirigente pouco disposta a contribuir de verdade com a questão climática.
Da mesma forma o colega Gordon Brown, às voltas com índices inflacionários indesejados e um crescimento do PIB perto de zero na Inglaterra.
Já disseram que o momento em que ocorreu ao Conferência de Copenhagen não foi o mais propício em razão dos tropeços econômicos vividos por muitas nações pelo mundo afora. Talvez seja verdade. Só se esqueceram de dizer isso ao planeta e à camada de ozônio...
Enquanto isto vamos caminhando para um destino previsível e caótico onde as condições climáticas poderão fazer deste planeta um local insuportável para se viver.
Por prevenção, é bom reservarmos alguma champagne para o reveillon do fim do mundo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Refletindo sobre a pena de morte



Sílvio Lanna
Hoje é um dia especial para James Bain. É um dia em que ele deve sentir-se nascendo novamente. Trata-se da data em que ele efetivamente recupera sua liberdade e sua honra, que lhe foram retiradas à força há 35 anos atrás.
Acusado de estupro e outros crimes em 1974, recebeu condenação à prisão perpétua e foi recolhido à penitenciária quando tinha somente 19 anos. Hoje, aos 54, foi libertado por haver comprovado sua inocência pela via do exame de DNA.
Nada disto poderia estar acontecendo, entretanto, caso houvesse recebido a pena extrema (lembremo-nos que 36 dos 50 estados americanos a utilizam).
No mundo foram executadas 2.390 pessoas em 2008, com o seguinte ranking dos campeões do assassinato legalizado: China (1.718), Irã (346), Arábia Saudita (102), EUA (37), Paquistão (36) e Iraque (34).
Dezenas ou centenas de erros já devem ter sido cometidos, exterminando a vida de inocentes que muitas vezes pagaram, na realidade, por crimes de opinião, por meras divergências religiosas e até pela cor de sua pele. Somente nos EUA 246 pessoas conseguiram sustar suas execuções pela comprovação da inocência à última hora. No resto do mundo não há estatísticas.
O tema pode ser objeto de muitas incertezas de ordem filosófica ou conceitual. Nenhuma dúvida, porém, pode restar sobre o fato de que o instituto da pena de morte é comprovadamente sujeito a erros.
Só isto já é razão suficiente para o repudiarmos incondicionalmente.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Os dois lados da moeda


Sílvio Lanna
Recebeu aprovação a Proposta de Emenda Constitucional que altera a forma de pagamento dos precatórios. Muito se discute se ela instrumentaliza o calote, se institui o leilão de créditos e, ainda, que pode se tornar um instrumento de justiça social, no sentido em que privilegia o pagamento dos pequenos valores.
O Poder Judiciário a considera uma verdadeira afronta, uma vez que engessará futuras decisões judiciais. Pela PEC, o pagamento de alguns precatórios poderá ser parcelado em até quinze anos e outros poderão ser recebidos após concessão de deságio (que poderá chegar a 80 por cento ou mais) por parte dos credores.
O presidente nacional da OAB chegou mesmo a considerá-la "o maior atentado à democracia desde a ditadura militar".
Em outra frente, a Medida Provisória 472, de 15.12.09, estabelece em seu art. 23 modificação no inciso I do art. 44 da Lei nº 9430/96. Em resumo, impõe multa de 75% (setenta e cinco por cento) sobre "O valor das deduções e compensações indevidas informadas na Declaração de Ajuste Anual da pessoa física."
Isto significa, nada mais, nada menos, que se algum de nós cometer um erro, por mais justificável que seja, em nossa declaração, virá a sofrer a multa cavalar inscrita na norma legal, incidindo a mesma sobre a diferença verificada. Ou seja: imagine que você tenha um recibo médico, por exemplo, no valor de R$ 1.500,00 e o registrou (apenas por erro, sem nenhuma má fé) por R$ 15.000,00. Sobre a diferença (R$ 13.500,00) você será penalizado em R$ 10.125,00.
E se a Receita Federal julgar que o erro acima ocorreu por intenção de fraudá-la (dolo)? Aí a multa será de 150% (cento e cinquenta por cento). No exemplo acima, o contribuinte será penalizado em R$ 20.250,00. Tudo isto por causa de um mísero recibo de R$ 1.500,00.
Percebemos então que o Estado é muito cioso de seus direitos financeiros e pune com energia ímpar aqueles que por qualquer motivo, possam reduzir-lhe a receita tributária. Tanto rigor destina-se - dirão os donos do cofre - a garantir recursos para os pagamentos a que se obrigam na manutenção do aparato estatal e no cumprimento de direitos de seus credores.
Parte de tais valores é paga pelos governos justamente com a emissão dos precatórios que, para quem não sabe, já gozam de um ou dois anos de prazo inicial de pagamento, assim que são constituídos.
Os maiores problemas ocorrem em nível municipal (não por outro motivo, o maior articulador para a aprovação da PEC do Calote foi o prefeto Gilberto Kassab, de São Paulo). O calote é generalizado em todo o país. Vejamos alguns exemplos de caloteiros pelo país: nossas Minas Gerais devem R$ 3,5 bilhões, o Rio de Janeiro R$ 2,4 bilhões, o Paraná R$ 4,5 bilhões, o estado de São Paulo R$ 16,4 bilhoes e a prefeitura paulistana R$ 11,3 bilhões. No país inteiro, estima-se que o "tombo" tenha atingido R$ 100 bilhões.
Algo está errado. No mínimo, temos a adoção de dois pesos e duas medidas na condução financeira do Estado brasileiro. No mínimo também temos um caso explícito (além de diversos outros) de péssima administração por parte de prefeitos e governadores (que não se cansam de se gabar das obras que fazem e de quão ótimos administradores são). Claramente exposta está a desvinculação entre voto e cidadania. Muitos brasileiros não votam orientando-se pela melhor alternativa para o país ou para sua região, mas naqueles que melhor apresentam suas mentiras e mais eficientemente encobrem suas falcatruas.
A comparação acima exposta, entre as duas faces de uma questão, é mais um de tantos exemplos existentes do escambo em que se tornou a administração pública neste país. É exemplo também do abandono em que se colocaram milhões de eleitores, por desconhecerem a real finalidade e o devido poder de seu voto.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Prá mim, calabreza. E prá você?


Sílvio Lanna.
Os legisladores do Distrito Federal saíram hoje para o recesso de fim de ano, possivelmente porque não encontraram nada urgente para resolver. Também porque precisam de mais tempo para as compras natalinas, já que dinheiro parece não ser o problema...
Prometem, entretanto, retornar mais cedo das merecidas férias - em 11 de janeiro - e iniciar a criação de uma CPI da corrupção para julgar o Arrudagate.
Até o presente momento, nada de novo no front.
Arruda se retirou do Dem, a alta cúpula do partido baixou consideravelmente o tom inicial contra ele (segundo alguns jornais, em razão de ameaças de novos escândalos), o PSDB retirou-se do governo brasiliense e diz que o assunto não é com ele, os altos dignatários democratas afirmam que as viagens internacionais teriam sido custeadas por seus próprios bolsos, enfim, da receita de panetone o que ameaça sair é mesmo uma pizza.
De minha parte, agendei 11.01.10 para verificar o que terá ocorrido até lá e se tem farinha suficiente para uma CPI ou se o tema já esfriou nos meios políticos e de opinião pública.
Enquanto o mensalão do DEM esfria, o melhor mesmo é colocar uma pizza no forno enquanto ele está quente.

Descendo aos porões


Sílvio Lanna
O Presidente da República promete mandar para o Congresso Nacional nos próximos meses um projeto de lei criando a Comissão Nacional de Verdade sobre a tortura no período da ditadura militar. Pretende esclarecer fatos, apurar e punir responsáveis e, por consequência, abrir a possibilidade de reparação civil pelo Estado.
A polêmica sobre o tema é grande e tudo leva a crer que os debates vão ser acirrados.
Os opositores dirão que todas as questões envolvendo o período ditatorial já foram resolvidas e soterradas pela Lei da Anistia e que o revolvimento do tema contém flagrante inconstitucionalidade.
Certamente o Supremo Tribunal Federal será provocado a decidir sobre isto, estabelecendo se há fronteiras ou não entre as duas normas legais.
Já os defensores da medida dirão que atos de tortura não são crimes políticos, estando, portanto, desabrigados pela anistia. Afirmarão ainda que é crime imprescritível no Brasil e, ainda, considerado como agressão contra a humanidade pelo Direito Internacional.
O debate será extremamente saudável para a sociedade brasileira que está acostumada a conviver com a dicotomia teoria-prática em questões polêmicas. Assim é com o preconceito racial, que teimamos em náo reconhecer no cotidiano, com o aborto, cuja prática fingimos não perceber e com a tortura, naturalmente praticada nas prisões, a que fechamos os olhos.
Fato incontestável é que os agentes da ditadura militar praticaram violência contra presos politícos já dominados e presos, utilizando-se de requintes de crueldade. Diversos casos denunciados e relatados pela ONG Tortura Nunca Mais trouxeram à luz casos apavorantes de violência contra homens e mulheres, demonstrando que os atos eram praticados com requintes de sadismo que remontam à Santa Inquisição.
É necessário que a sociedade brasileira adote uma posição firme em relação à tortura, não mais fingindo sua inexistência no passado e no presente. Nossa indolência é fator preponderante para sua manutenção ativa e também para que os arautos da ditadura possam promover sua publicidade, como foi o caso do jornal Folha de S. Paulo, que em sua edição de 19.02.09 retratou-a como "ditabranda", em uma tentativa de sua reabilitação social.
Tortura é crime hediondo e torturador é criminoso que não merece regalias. Seu lugar é na cadeia, sem os benefícios que a lei concede a atos infracionais de menor lesividade.
Nos porões da ditadura militar brasileira ainda há muito o que descobrirmos, inclusive criminosos que não merecem o perdão concedido pela Lei de Anistia.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Desculpem a nossa falha...



Sílvio Lanna
Na postagem anterior, em que eu falava sobre madame Clinton, foi publicada erradamente a imagem de Monica Lewinski.
Corrigimos o problema com a publicação da foto correta, ao lado, aparentemente obtida no exato momento em que a secretária de estado proferia suas ameaças.
Monica, para quem se esqueceu, foi a estagiária contratada pelo presidente Clinton e pivõ do charutogate, evento que ficou famoso por revelar insólitas condições de trabalho na Casa Branca.
Dizem que desde aquela época ms. Hillary tem estado muito nervosa...

Tia Hillary ficou brava!!!



Sílvio Lanna

Hillary Clinton, em recente reunião no Departamento de Estado, disse que os países da América Latina (Venezuela, Bolívia e "outros") não devem se relacionar com o Irã, sob pena de se sujeitarem às consequências do ato.

A ameaça oficial do governo americano (uma vez que proferida por sua Chanceler) se justificaria por que, segundo ela:

- Trata-se de país "patrocinador e exportador" de terrorismo.

- O país tem histórico de abusos aos direitos humanos.

- As recentes eleições tiveram condução e resultados suspeitos.

Tia Hillary parece estar sofrendo lapsos de memória, porque:

- As informações sobre a participação do Irã no terrorismo internacional podem ter a mesma consistência daquelas que denunciavam a existência de fábricas de produtos químicos com finalidade bélica no Iraque (uma mentira produzida com a única finalidade de justificar a invasão pelos EUA).

- Quanto a desrespeitar os direitos humanos, são várias as denúncias contra a China e nem por isto os EUA lhe aplicam o mesmo tratamento (ou seja, pura hipocrisia).

- Se as obscuridades presentes na eleição iraniana são motivos para sua segregação internacional, o que dizermos do golpe de estado em Honduras e a deposição do presidente Zelaya, ambos os fatos recentemente absorvidos e aprovados pelos EUA (dois pesos e duas medidas?).

Interessante lembrarmo-nos de que a então candidata à indicação pelo Partido Democrata afirmou em abril de 2008 que, se eleita presidente, poderia destruir o Irã caso o país atacasse Israel. Todas estas declarações, ameaças e impropérios fazem parte da história americana e da empáfia de seus governantes, que sempre se atribuem a função de xerife do planeta. Nem mesmo se preocupam mais em salvar as aparências e exercer sua megalomania com alguma sutileza.

Quanto à decisão de receber o presidente Ahmadinejad, trata-se de foro exclusivo dos respectivos governos, que jamais poderiam se pautar pela inaceitável intromissão do governo americano. Até porque falta-lhe isenção moral para ditar regras de conduta a quem quer que seja.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O herói nacional

Sílvio Lanna

Também somos uma pátria de heróis (não só de bandidos e salafrários como querem Arnaldo Jabour e outros iconoclastas).

Nosso herói não usa vistosas roupas coloridas, não ostenta capas esvoaçantes e não bombardeia vilas civis. Também não escala edifícios, não tem o poder de voar e nem derruba napalm em quem se parece com o inimigo.

Nem mesmo nosso herói é hoje Macunaíma, porque aquele foi resultado de um grito de Mário de Andrade num momento em que era necessário acordar-nos e, talvez, provocar uma certa autofagia...

Nosso herói é personagem do dia a dia, que sofre, erra, acerta, ama, briga e, fundamentalmente, luta pela vida. Está pelas fábricas e pelas ruas, pelas escolas e pelas feiras, por todos os lugares onde um cidadão respeitável deve estar.

E está também em cima de uma ambulância gritando a plenos pulmões o seu protesto em favor de uma inocente criança recém-nascida cujo atendimento médico havia sido negado.

Usa da arma que tem e que carrega dentro de si, uma arma que todos nós brasileiros também possuímos para ser usada a qualquer momento em que dela necessitemos: a JUSTA INDIGNAÇÃO.

Saudades da ditadura?


Sílvio Lanna

O país assistiu perplexo às imagens da repressão policial contra a manifestação de grupos civis em Brasília ontem.

Foram investidas da cavalaria, cachorros, pancadaria com cassetetes, jatos de spray de pimenta, tiros com balas de borracha, bombas de efeito moral, enfim, todo o aparato policial que se destina a neutralizar tumultos que envolvam riscos à integridade física e/ou material da população.

Vimos também um coronel se atracando fisicamente com um manifestante, ataque da guarnição aos repórteres que cobriam o evento e agressões praticadas sobre pessoas desarmadas e dominadas (até porque caídas no chão). Ao final de tudo, as inexoráveis entrevistas dos representantes da polícia e da secretaria de segurança justificando as agressões.

O porta voz da instituição, mal disfarçando a irritação em dar explicações, taxou de "normal" a reação, uma vez que os policiais estariam sob ameaça e, ainda, que os manifestantes teriam quebrado o acordo que previa os locais onde poderiam se manifestar.

Ou seja, foi legítima defesa.

Para quem assistiu pessoalmente ou por imagens de TV os atos de repressão ocorridos à época da ditadura militar, a lembrança é instantânea. Seja pela simbologia dos fatos, seja pela estratégia da polícia, seja pela truculência, por instantes pareceu-me haver retrocedido no tempo.

Não podem prevalecer os discursos mal intencionados que, simulando justa indignação, afirmam ser necessário o uso da força em determinadas situações de risco iminente. O que se viu em Brasília não foi um palco de guerra, não foram manifestantes atentando contra a segurança de cidadãos, não foi violência combatida com violência.

Foi violência, só, unilateral.

E foi aplicada contra manifestantes e telespectadores, em um recado que me pareceu originário de uma só pessoa, que ao determinar a repressão tinha realmente motivos para estar irritado.

O sr. Governador de Brasília parece ter usado de sua (ainda) autoridade para vingar-se. E vingou-se. Deve estar um pouco mais aliviado agora.

E com relação a ele, causa de tudo o que ocorreu, parece ter sido perdoado pelo DEM, que havia marcado para a segunda-feira passada decidir-se sobre sua expulsão ou não dos quadros. Não expulsou e também não disse o que fará. Aparentemente valeu-se dos panos quentes (que deviam estar sob a guarda de Sarney), sempre úteis para situações da espécie.

Os fatos ocorridos ontem passam para os registros históricos e serão certamente relembrados futuramente, como todos os registros dignos de nota. Tais ocorrências precisam mesmo ser trazidas à tona constantemente, para que incomodem, agridam visualmente, promovam indignação e incitem protestos. Tudo isto para nos prevenirmos contra alguns saudosistas que ainda permanecem de pé, ativos, e, muitas vezes, produzindo discursos nas tribunas e editoriais jornalísticos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Alertas da natureza: IV-Elevação do nível dos oceanos

Sílvio Lanna

Já não há dúvidas de que os mares pelo mundo afora elevam-se mais rapidamente do que o previsto, defendendo alguns estudiosos que ao final do século eles poderão ter subido mais de um metro.

A origem desse problema está no derretimento das calotas polares do Ártico e da Antártida, mas também na expansão térmica de sua massa líquida, uma vez que os oceanos também têm experimentado aumento de sua temperatura média no decorrer dos anos.

Dezenas de localidades, inclusive na costa brasileira, encontram-se seriamente ameaçadas e, no caso de regiões de grande concentração demográfica, os danos são potencialmente maiores.

Estima-se que algumas nações chegarão mesmo a desaparecer, como as ilhas Maldivas, paraíso turístico localizado ao sul da Índia e a sudoeste de Sri Lanka, contando com 1.190 ilhas cercadas por praias famosas pela beleza e pelas águas quentes (chegando a atingir 30º C). Possui alguns dos resorts mais luxuosos do mundo e uma exuberante vida marinha. Lá residem atualmente 370.000 pessoas e, segundo historiadores, é habitada há 3.000 anos.

Possui altitude máxima de dois metros com relação ao nível do mar e qualquer elevação marinha de centímetros já traz fortes problemas para o arquipélago.

Outra nação - Tuvalu -, situada entre o Havaí e a Austrália, composta por 11.000 habitantes já prepara sua transferência para a Nova Zelândia, uma vez que a submersão de seu território é inevitável. A invasão do mar já trouxe danos irreparáveis às suas fontes de água potável e à agricultura, bem como já destruiu boa parte de sua terra firme pela erosão costeira. O aumento da temperatura oceânica trouxe destruição também por propiciar maior incidência de furacões na região.

Não somente danos radicais como os acima referidos são ameaças produzidas pela elevação dos oceanos. Outras ocorrências de imensa gravidade também estão previstas, como por exemplo:

- A inundação de extensos arrozais em Bangladesh, forçando milhões de agricultores a de deslocarem para o interior. Consideremos que a região apresenta uma das maiores concentrações demográficas do planeta, além de um endêmico estado de miséria e de péssima qualidade de vida.

- Também Índia, Tailândia, Vietnam, Indonésia e China sofrerão problemas graves pela invasão das águas, com grandes prejuízos sociais e às lavouras de arroz.

- Nos EUA estima-se que, cumpridas as previsões sobre instabilidade oceânica, haveria perda de 36.000 km2 de áreas litorâneas, notadamente de sua costa atlântica, com prejuízos que poderiam chegar a 150 bilhões de dólares.

Há cálculos provenientes do Centro de Ciências Ambientais da Universidade de Maryland apontando para a diminuição de um metro e meio de terras costeiras para cada milímetro de elevação do nível dos oceanos. Se confirmados os estudos, teremos que ao final do século os litorais terão recuado algo em torno de um quilômetro e meio.

Alertas da natureza: III-Derretimento nas montanhas


Sílvio Lanna

Outra consequência do desequilibrio climático no planeta e que também vem causando efeitos desastrosos é o derretimento das geleiras de altitude.

No norte da Índia e da China o abastecimento de água já está prejudicado pelo afinamento das geleiras do Himalaia. Na América do Sul os Andes já encolheram entre 30% e 100% sua cobertura de gelo. Os Pirineus, localizados entre Espanha e França podem transformar-se completamente até meados deste século. Já o Kilimanjaro, na fronteira entre Tanzânia e Quênia, perdeu cerca de 85% de sua cobertura gelada.

O British Antartic Survey (BAS) e a Universidade de Bristol analisaram a perda de volume de centenas de glaciares da Antástica e da Groenlândia. Com estudo publicado na revista Nature (http://www.nature.com/) afirmam que a perda das coberturas de gelo é maior que no interior em nível do mar, ocorrendo a um ritmo de 9 metros/ano. Os pesquisadores mostraram-se surpresos ao constatar que o padrão de afinamento das geleiras vem ocorrendo muito fortemente e em uma área muito vasta, estendendo-se por centenas de quilômetros em direção ao interior.

Já a Groenlândia vem perdendo anualmente cerca de 51 bilhões de metros cúbicos de água, o equivalente a um rio Nilo inteiro, sendo que em sua maior parte na base das montanhas.

Nos Andes peruanos a geleira de Quelccaya encolhe 30 metros por ano desde 1990. Por sua vez, os Alpes europeus já foram despojados de algo em torno de 35/40% de seu gelo "eterno".

Pesquisadores indianos desenvolveram pesquisas nas geleiras da Caxemira indiana e concluiram que elas estão se desfazendo depressa demais. Só na geleira Kolahoi, a maior da parte indiana da Caxemira, encolheu para cerca de 11 km2. Com isto encontra-se em risco o abastecimento de água para 60% dos 10 milhões de habitantes daquela região do Himalaia.

Não só naqueles locais, como em todo o maciço himalaio as geleiras estão afinando em massa, perdendo enormes quantidades de água. Um bilhão de residentes na Índia, no Paquistão, em Bangladesh, no Tibete, na China e no Vietnam estão sob risco.

Recobrindo quase 3 milhões de hectares, as 15 mil geleiras do Himalaia formam a terceira maior massa glacial do mundo, perdendo somente para os polos. Armazenam-se ali aproximadamente 12.000 km3 de água doce, constituindo-se ainda no reservatório dos rios Indo, Ganges, Bramaputra, Yang-Tsé, Amarelo e Mekong.

Com o derretimento, grandes volumes de água acabam por se acumular nos leitos desses rios. Suas vazões provocarão no futuro grandes enchentes, que devastarão as culturas e as habitações em suas ribanceiras.

Também fundamental é o relatório produzido e publicado em 2005 pelo WWF, alertando que "As geleiras do Himalaia estão recuando mais rápido do que em qualquer outro lugar do mundo, e se isso continuar no ritmo atual, a maioria delas terá desaparecido em 2035."

Além de tudo isto, há ainda a elevação do nível dos oceanos (30 centímetros no último século) que, em última análise, recebem todo o excesso da água depositada nos rios.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Alertas da natureza: II-Derretimento do gelo antártico




Sílvio Lanna


O derretimento da calota polar antártica, no Polo Sul, assim como o ocorrido no Ártico, implica em perigoso aumento do nível dos oceanos. Estimam os cientistas que o desfazimento completo do gelo existente nesses dois extremos do planeta faria com que os oceanos subissem algo em torno de setenta e sete metros (70 originários da Antártida e 7 do Ártico).


Em início de 2007 a NASA documentou o mais significativo derretimento ocorrido naqueles extremos, com área correspondente aos estados de São Paulo e da Califórnia. O estudo encontra-se relatado no site http://www.nasa.gov/vision/earth/lookingatearth/artic-20070515.html


Já os especialistas da British Antartic Survey (BAS), entidade britânica que estuda o continente antártico, comprovou recentemente a relação existente entre o derretimento das calotas polares e a ação humana. Os estudos estão publicados no site http://www.antarctica.ac.uk/


Segundo eles, o aquecimento da Terra em razão do constante acréscimo na emissão de gases do efeito estufa vem causando o derretimento das geleiras (antes consideradas "eternas") por interferir diretamente no padrão dos ventos. Isto se daria pela intensificação dos ventos quentes originários do oeste e que incidem sobre o Polo Sul no verão. O acréscimo na temperatura atingiu 5º C, o que é considerado excessivo e profundamente danoso.


Cientistas britânicos e americanos a serviço do BAS estudaram centenas de glaciares antárticos, tendo sido seu relatório publicado pela respeitada revista Science (http://www.sciencemag.org/), edição de abril de 2005.


Analisaram mais de duas mil fotografias aéreas produzidas desde os anos quarenta, além de um grande número de imagens obtidas por satélites em operação desde os anos sessenta. Concluíram que a maioria dos glaciares estudados recuou no último meio século a uma taxa média de cinquenta metros por ano (sendo que somente em um deles a redução chegou a treze quilômetros), tendo a temperatura local se elevado em 2,5º C.


No final do mês de novembro foram localizados quatro icebergs próximos (cerca de 400 km) das costas da Nova Zelândia, viajando a cerca de 1,5 km/h. Procedem da Antártida, sendo possivelmente pedaços de plataformas continentais liberados em razão de fendas produzidas pelo aumento da temperatura local.

Alertas da natureza: I-Derretimento do gelo ártico




Sílvio Lanna




Cerca de 15.000 representantes de dezenas de nações estarão em Copenhagen a partir de amanhã, 07/12, para a 15ª Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas - COP 15. Estima-se que que os trabalhos consumirão duas semanas de técnicos de diversas partes do planeta, sendo que para a etapa final são aguardados ainda 100 chefes de Estado e de Governo.



Trata-se de um grande esforço, necessário e urgente, para tentar conter os efeitos danosos do aquecimento global. Não é necessário dizermos, tenta-se em última análise permitir à raça humana que sobreviva ao futuro que ora se apresenta especialmente dramático. Segundo entidades mundialmente reconhecidas pelos estudos climáticos e suas consequências à biosfera, existem alguns sinais atualmente percebidos e que nos indicam a gravidade do problema.



A partir de agora eles serão aqui abordados. Iniciamos pelo derretimento da cobertura gelada do Polo Norte, ou Ártico:



As geleiras árticas estendem-se por 15 milhões de km2 e, segundo respeitados cientistas, está em franco processo de derretimento, ameaçando no curto prazo a sobrevivência de suas espécies tipicas, como os ursos polares. A médio e longo prazos, entretanto, os efeitos nos atingirão em cheio. Tudo causado pelo aquecimento global. No caso do Ártico, quanto menor é a superfície coberta de gelo, menos quantidade de raios solares são refletidos de volta. A consequência imediata é que o calor então adicionalmente recebido é absorvido pela água, aumentando sua temperatura e acelerando ainda mais o derretimento.



Segundo recentes medições efetuadas pelo Centro Espacial da Dinamarca, o gelo ártico encolheu cerca de um milhão de km2 no verão (tendo a cobertura passado de 4 para 3 milhões de km2). Isto após as medições de 2005 e 2006, o que torna especialmente grave o problema.



Conforme relatório do World Wildlife Fund (WWF), com a adição dessa imensa quantidade de água o nível dos mares deverá aumentar consideravelmente, podendo atingir mais de um metro adicional em 2100, inundando e destruindo extensas áreas costeiras. Nessa hipótese, seriam diretamente prejudicados algo em torno de 25% da população do planeta. Só para percebermos melhor a dimensão do desastre, atualmente esse percentual corresponde a aproximadamente um bilhão e meio de pessoas. Consideremos ainda a parcela daqueles indiretamente atingidos e teremos uma situação de verdadeiro caos.



O motivo para esse aparente pessimismo é a constatação de que, ainda segundo a WWF, o Ártico aqueceu o dobro que o restante do planeta nas décadas recentes. Aí aparece outro fato igualmente dramático: o próprio aumento da temperatura ártica é um dos fatores que contribuem para o aquecimento do restante do globo, somando-se aos demais fatores desencadeantes.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Mais uma vez...


Sílvio Lanna


Mais uma vez...
Como se eles estivesse determinados a testar nossa paciência (ou nossa indolência).

Não se contentam em mentir, expelir promessas vãs e aboletar-se em seus confortáveis tronos com ares de realeza.

Também não se constrangem em trabalhar quando muito no miolo da semana, como quem se desfaz das cascas de uma fatia de pão de forma.
Não dão a mínima para a fidelidade, como se partidos fossem pinguelas de que se utilizam para pular de margem a margem assim que seus peculiares interesses os orientem.
Também não se preocupam em prestar contas da lista de verbas a que fazem jus, sob o nome de vencimentos, verbas de gabinete, auxílio moradia, passagens aéreas, combustíveis, correios, telefones, publicações, décimo quarto e décimo quinto salários, dentre outros. Afinal, mantêm consigo a chave do cofre.
Nem se tocam quando elevam seus próprios salários e verbas, mesmo após haver negado o mesmo privilégio a seus sofridos eleitores. Convenhamos, vivem no Olimpo e nós, míseros mortais...
Também desejam manter intocável a caixa preta do financiamento eleitoral (e do respectivo caixa dois). Afinal, devem imaginar que seja assunto do interesse privado de financiadores e financiados.
Não gostam ainda que nós, os alienígenas, coloquemos o dedo em seus domínios. Estão se lixando para a opinião pública, já disseram abertamente. À primeira aproximação nossa suspendem a ponte levadiça e expõem o fosso intransponível que nos mantém a confortável distância de seu feudo.
Divergências políticas? Estas são tratadas em seu próprio meio e albergadas pelo eficiente sistema de proteção mútua destinado aos que são pegos com a boca (ou as mãos) na botija de nosso caro dinheirinho. Que o digam Sarney, recentemente, e tantos outros no desenrolar da história política.
Não bastasse tudo isto, ainda têm que furtar, manipular, corromper-se? Por que?

E ainda escolhem as maneiras mais vis, porcas e ridículas, como tem noticiado a imprensa.
Por que tem faltado caráter e honestidade? Será que é pela certeza de que nos manteremos indolentes? Ou será porque, no fundo, o crime compensa? Afinal, com tantos milhões no bolso, que bandido se importará com questões menores?
Fico pensando como é que essa gente encara os vizinhos, a atendente da loja, o caixa do banco, enfim, todas aquelas pessoas que podem até não expressar sua opinião a respeito, mas que pensam, pensam... e que se envergonham no lugar dos que não têm mais vergonha na cara para se ruborizar.

E os honestos, os que fazem jus à representação que lhes foi confiada e à esperança que lhes foi depositada? Devem estar envergonhados por seus colegas, mas podem fitar os filhos nos olhos na convicção de que lhes estarão legando a única herança que realmente vale algo: a dignidade.

O que andam fazendo com seu voto???

Sílvio Lanna


A gente às vezes se pergunta quanto vale nosso voto. Refletimos sobre a importância da participação política, da defesa intransigente da cidadania, de nossa afirmação como povo indepentente, tudo isto e muito mais.

Só que às vezes nos esquecemos de perguntar aos destinatários de tão relevantes manifestações qual é a avaliação que ELES fazem.

Só a título de modestos exemplos, vejamos as respostas de alguns de nossos ilustres parlamentares:

- Lá no Piauí a Câmara Estadual aguarda a oportunidade de votar o Projeto de Lei nº 056/06, de autoria da deputada Maria José Leão, de 21.06.06, que dispõer sobre a prioridade às mulheres na concessão de titularidade de imóveis financiados.

- O Deputado Germano Bonow - DEM-RS - deve ter sentido a satisfação do dever cumprido ao ver aprovado seu Projeto de Lei nº 1356/2007, que instituiu o Dia do Acemista em todo o território nacional, a ser comemorado em 20 de julho. Após muito burburinho, ele explicou que não era uma homenagem aos seguidores do falecido senador baiano ACM, mas à Associação Cristã de Moços. Não há notícia de que o Village People tenha sido convidado para o evento...

- Outro PL, de nº 728/2007, de imensa relevância sócio-política, foi proposto pelo dep. Mão Branca (PV-BA) para avaliação na Câmara Federal. Dispõe sobre o uso facultativo de chapéu em estabelecimentos públicos e privados.

- Já a Câmara Distrital de Brasília, em franca atividade legislativa (ligeiramente interrompida pelo mensalão do Arruda), concedeu títulos de cidadania honorária ao irlandês Paul David Hewson, conhecido pelos fãs como Bono Vox, bem como para o ex-presidente da África do Sul Nélson Mandela. Não se esqueceram ainda de Pelé, de Sua Santidade o Papa João Paulo II e dos artistas do grupo Asa de Águia.

- Ainda a Câmara Brasiliense: outra discussão consumiu muitas horas de trabalho e talvez até mesmo horas-extras. Os ilustres deputados distritais buscaram eleger o animal símbolo do DF, elegendo o peixe pirá-brasília. O deputado Wilson Lima (PR-DF) entretanto ponderou que o animalzinho é hermafrodita e talvez não pegasse bem conceder-lhe tão elevada comenda. Envolveram-se em novas e profícuas discussões, quando içaram ao nobre cargo de representação o lobo-guará. Este foi também recusado porque, segundo alguns ativos parlamentares, possui imagem desgastada junto às crianças, por lembrar o vilão da estória do Chapeuzinho Vermelho. Foi aí que se lembraram de outro bicho, este típico da região, o camundongo do cerrado. Animalzinho simpático, lembra o Mickey Mouse, adorado pela criançada. Refletiram, no entanto, que talvez não pegasse bem um rato como símbolo da Capital Federal, reduto da mais expressiva classe política nacional...
Foi aí que suspenderam a eleição do tal animal símbolo até a candidatura de outro bicho mais apropriado...
Será que alguém tem alguma idéia?

Vejamos também outros exemplos da incansável atividade política de nossos representantes na Câmara Federal. Deve ter sido muito trabalhoso, mas eles conseguiram aprovar algumas datas comemorativas de expressiva relevância para o futuro do país:

- 15 de janeiro: Dia Nacional do Fair Play (PL 1305/07, do dep. Deley de Oliveira, do PSC-RJ)
- 20 de janeiro: Dia Nacional da Parteira Tradicional (PL 3308/04, de autoria da dep. Rose de Freitas, do PMDB-ES)
- 6 de fevereiro: Dia Nacional do Reggae (PL 4765/09,da dep. Sueli Vidigal, do PDT-ES)
- 16 de março: Dia Nacional do Ouvidor (PL-764/07, do dep. Geraldo Thadeu, do PPS-MG)
- 19 de abril: Dia Nacional do Poeta (PL 770/07, do dep. Inocêncio Oliveira, do PR-Pe)
- 23 de maio: Dia do Seresteiro (PL2135/07, da dep. Andréia Zito, do PSDB-RJ)- 18 de junho: Dia do Tambor de Crioula (PL 1677/07, do dep. Gastão Vieira, do PMDB-Ma)
- 26 de junho: Dia Nacional da Consciência do Primeiro Voto (PL 3086/08, da dep. Cida Diogo, do PT-RJ)
- 27 de junho: Dia do Quadrilheiro (PL 2207/07, da dep. Nilmar Ruiz, do DEM-To)
- 10 de outubro: Dia Nacional do Motorista de Ambulância (PL 1623/07, do dep. Gervásio Silva, do PSDM-Ce)- 25 de outubro: Dia Nacional do Macarrão (PL 3738/04, do dep. Luiz Carlos Hauly, do PSDB-Pr)
- 3 de novembro: Dia Nacional do Quilo (PL 2992/04, do dep. Carlos Santana, dep PT-RJ)
- Terceiro domingo do mês de novembro: Dia Nacional de Conscientização do Estresse (PL 3555/08, do dep. Mendes Ribeiro Filho, do PMDB-RS)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Nobel da paz foi à guerra

Sílvio Lanna

Francamente, jamais achei que mr. Obama representasse uma grande virada no american way of power que tradicionalmente tem justificado as mais absurdas intervenções americanas no planeta.


O fato de ser negro realmente significou um avanço, notadamente em um país que assentou sua história no preconceito racial e nas decorrentes manifestações de ódio entre concidadãos.

Só isto, aparentemente, credencia o presidente americano a apresentar-se como uma mudança realmente digna de nota.


Para nos atermos aos quadros do Partido Democrata, lembremo-nos de que ele foi precedido por políticos que deixaram marcas profundas no cenário mundial, seja por seus atos, seja pelos momentos históricos em que se inscreveram, como Roosevelt, Truman, Kennedy e Clinton.


Não obstante, a Real Academia Sueca houve por bem conceder a altíssima honraria constituída pelo Prêmio Nobel da Paz ao dirigente americano. Tentando explicar a insólita escolha, seus representantes a atribuíram a um crédito de confiança para que Obama pudesse, futuramente, contribuir para a desejada paz mundial.


O rol de personalidades que realmente envidaram esforços para que este planeta pudesse ficar um pouquinho melhor de se viver contém nomes como Martii Ahtisaari (finlandês atuante em diversas negociações pela paz mundo afora), Shirin Ebadi (ativista iraniana em defesa de minorias naquele país), a organização Médicos sem Fronteira (que atua no socorro médico às vítimas de conflitos mundiais), a dupla John Hume e David Trimble (pelos esforços para acabar com a guerra interna na Irlanda do Norte), madre Teresa de Calcutá, dentre outros.

Nunca me pareceu que mr. Obama pudesse ficar à vontade em tão seleta companhia.

Pois bem, ontem ele anunciou o envio de mais 30.000 militares americanos ao Afeganistão, tendo como meta que a ocupação atinja 100.000 soldados. A justificativa é a de sempre: ameaça à segurança internacional e defesa de um país por quem os EUA manifestam especial apreço.

Ninguém é louco de defender as práticas do Taleban ou de considerá-lo como uma opção razoável de governo, até porque nada mais fez que barbáries e absurdo desrespeito aos mais elementares direitos humanos quando controlou o país. É preciso considerarmos, portanto, que o Taleban é um problema, mas é problema interno do Afeganistão. Não vejo porque o restante do planeta possa se julgar ameaçado.

Entretanto, é uma das funções da ONU julgar a necessidade ou não de intervenção internacional por motivos humanitários. E foi o que fez, enviando para lá 40.000 militares. Não compete aos EUA a função que historicamente atribuíram a si próprios, de xerife da humanidade, no melhor estilo John Wayne.
A decisão comprovou, aparentemente, que Obama e Bush têm os olhos voltados para o mesmo horizonte, não obstante os discursos, as aparências e as tendências políticas difiram entre si.

A ironia está posta: após participação na reunião de Copenhagen, onde os líderes mundiais discutirão outra forma de paz - a sobrevivência do planeta -, mr. Obama irá receber seu laurel. Neste instante, milhares de marines estarão se preparando para matar ou morrer em terras estranhas, para lá enviados pelo paladino da paz.

domingo, 29 de novembro de 2009

O sentido da vida

Não ajunteis tesouros na terra,
onde a traça e a ferrugem tudo consomem,
e onde os ladrões minam e roubam;
mas ajuntai tesouros no céu,
onde nem a traça nem a ferrugem consomem
e onde ladrões não minam nem roubam.
Porque onde estiver o vosso tesouro,
aí estará também o vosso coração.
(Mateus 6.19/21)

Docim minero - DÔS DE PÃO

Ói, gente, vai agora uma receita da roça di DÔS DE PÃO. Uma diliça:

Pega uns quatro pãozim de sá dos bão, aquês pão véio, já duro de quebrá os dente, que ocê ia dá pros cachorro ou prás galinha, pica ês tudo que nem rodela de tumate e põe numa vasia. Aí, ocê rivira lête pru riba, prá dexá bem moiadim, inté tampá ês tudo de lête.

Inquanto isso, cê pega um quarto de rapadura (ô duas caneca de açúca) e põe nu fogo prá derretê.

Nora que a carda tivé prontinha, vira um li de lête e dexa frevê. Dispois do trem frivido, é rivirá a vasia com os pãozim moiado de lête na penela e dexá cuzinhá inté ingrossá o dôs. Vai mexeno co a cuié de pau e vai isfregano as mão. Tano cuzidim, é pô prá isfriá, jugá um punhado de canela de pó e se quisé botá um punhadim de quêjo da roça bem picadim ispaiado junto da canela tomém fica ispiciá.

Bão! Se tivé geladêra é só dexá ficá geladim e cumê de cuié. Iscói uma cuié bem grandona daquéas de pegá arroiz, que é batê e valê. É de lambê os beiço.

Benzodeus! Ô trem bão, sô!

Inté! Otro dia eu insino ocês fazê otro dôs gostoso tamém!

sábado, 28 de novembro de 2009

Vai um baseado aí?


Sílvio Lanna

O presidente FHC tornou a defender a descriminalização da posse de maconha para uso pessoal, em recente reunião da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia.

Em sua cruzada está acompanhado por César Gavíria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México) e por intelectuais como o brasileiro Paulo Coelho (...).

O tema vem ganhando adeptos e notoriedade na América e na Europa, onde países como Holanda e Portugal já experimentaram políticas mais condescentes com relação às drogas.

O ex-presidente brasileiro sustenta sua tese no argumento de que o mundo já teria perdido a guerra contra as drogas e que, ao liberar seu consumo os governos poderiam melhor tratá-lo como questão de saúde pública e, com estratégias de informação, reduzir sua presença na sociedade.

Mais ou menos como se tenta há anos fazer com o cigarro (o comum).

O conceituado INCA - Instituto Nacional do Câncer -, baseando-se em dados veiculados pela OMS - Organizaçao Mundial da Saúde - já afirmou que 47% de toda a população masculina do planeta é usuária de tabaco. Se abrangermos também as mulheres fumantes no índice, teremos que um terço dos habitantes da Terra estão nessa condição, ou seja, aproximadamente 1,25 bilhão de consumidores em um mercado econômico fortíssimo.

Tais números não abrangem, evidentemente, os fumantes passivos, que são uma outra categoria com muitos bilhões de componentes.

Ainda segundo o respeitado instituto o número de mortes pelo uso do tabaco atinge por ano 4,9 milhões de pessoas. O consumo, infelizmente, está em expansão principalmente no público feminino, fazendo com que o INCA considere que em 2.030 o número de óbitos em decorrência do cigarro atinja 10 milhões de pessoas.

Consideremos também que há mais de vinte anos, em maior ou menor intensidade, estabeleceram-se mundo limitações importantes e/ou ações desestimulantes ao uso do tabaco, quais sejam a proibição de publicidade, da venda a menores, a limitação de locais para o uso, dentre outras.

Nas últimas semanas no Brasil, importantes providências foram tomadas, a partir de São Paulo, com a proibição do fumo em locais públicos. Belo Horizonte e Rio de Janeiro acompanharam a providência com apenas algumas diferenças na norma legal.
Parece que também perdemos a guerra contra o tabaco...

Como pode ser isto, com tantas medidas tomadas pelos governos?

Os argumentos para a liberalização da maconha, defendidos por FHC e seus correligionários, são a "perda da guerra" contra a droga e a necessidade de se trazer à luz os usuários para que possam ser tratados como doentes pelo sistema público de saúde.

Convenhamos, isto já vem sendo feito com relação aos tabagistas há mais de vinte anos. Por que será que não adiantou? Por que será que o consumo não regride? Por que será que as pessoas insistem em continuar morrendo, mas não abandonam o vício?

Parece-nos, então, que a descriminalização levaria a maconha a uma situação semelhante à do tabaco com relação à intensidade do uso.

È perfeitamente possível que a liberalização provoque um aumento de demanda da maconha, ao contrário do que esperam os aparentemente ingênuos defensores de sua liberação. Vejamos:

Os produtores, transportadores e comerciantes das drogas liberadas não mais terão que adicionar ao preço os custos derivados dos riscos até então sofridos, das apreensões (feitas na base de toneladas dos produtos), bem como inaugurarão certa concorrência entre si. Tudo isto - para analisarmos sob a fria ótica capitalista - deverá fazer com que os preços caiam.

Pelo lado da demanda, os pontos de venda não mais serão as "bocas de fumo" instaladas no fundo de escuros becos, mas unidades de venda à luz do dia em barracas de praia e de quiosques nos shoppings.

Será possível adquirir uma caixinha de baseados com cartão de crédito!!!

Quem sabe na compra de meio quilo de maconha o consumidor ganha um cachimbo?

E o que dizer da maconha orgânica, sem utilização de defensivos e fertilizantes químicos?

Será que veremos uma criança pedindo ao atendente da lanchonete um chiclete de melancia e um baseado com sabor de cravo?

Não! Dirão os "abolicionistas" da erva: é evidente que a venda somente poderá ser feita a maiores de idade...

E aí a gente raciocina: a restrição da venda a menores ocorrerá da mesma forma que no caso do maço de Marlboro e da latinha de Skol?

Agora analisemos o tema sobre outra ótica: a dos traficantes, bandidos hoje, que serão em um passo de mágica transformados em empresários amanhã. Bem sucedidos, diga-se. Neste ponto, outro Fernando - o Beira Mar - parece ter motivos para concordar e aplaudir a iniciativa do primeiro Fernando - o HC.

Por fim, o reconhecimento de que determinada estratégia de combate tem sido ineficaz não é motivo para aabandono da luta. Se assim fosse, deveríamos descriminalizar também os homicídios (que aumentam a cada dia mais) os atos de pedofilia (notícias cada vez mais presentes em nossos jornais) e tantos outros crimes que têm nos trazido profunda sensação de impotência em face do crime organizado.

Temos falhado no combate ao tráfico, é verdade...

Esse, entretanto, é um forte motivo para reavaliarmos as fórmulas de combate, a legislação disponível, a impunidade (grande incentivadora desse estado de coisas) e todos os componentes dessa tragédia que se abateu sobre nossa sociedade.

Batermos em retirada e unirmo-nos a nossos adversários não resolverá nenhum problema. Só nos fará tão criminosos quanto aqueles que, por enquanto, tentamos combater.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Tênis e Frescobol




Rubem Alves

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol.

Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal.

Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me.

Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente.

Dizia ele: "Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice? Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar".

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da carne são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O Império dos Sentidos.

Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites.

O sultão se calava e escutava suas palavras como se fossem música.

A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma de eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras.

E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo, eu te amo..." Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, "eu te amo" não quer dizer mais nada. "É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma..."

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário.

E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco de seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muto sugestiva, que indica seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhm dos dois perca. Se a bola vier meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforçodo mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha.

E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho prá lá, sonho prá cá...

Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis.

Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros Cadernos, é sobre este jogo de tênis:

"Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente sua superioridade. O outyro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: "Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo". A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ela cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: "Tens razão, minha querida". A situação está salva e o ódio vai aumentando."

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão...O que se busca é ter razão e o que se ganha pe o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhaqs de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor ... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...