quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Vox populi


Sílvio Lanna
Passado o período eleitoral e consolidada a vitória da Dilma no segundo turno, passo a imaginar o que aconteceu no Brasil nos últimos oito anos sob o comando de Lula e o que resultou na presente eleição dela para mais quatro.

Os números macroeconômicos brasileiros – e isto não é opinião, é estatística – revelaram uma situação intensamente discutida e que sustentou acalorados debates entre economistas de esquerda e de direita nos anos oitenta. Lembro-me dos anos de faculdade de economia e das discussões resultantes da contraposição entre a turma heterodoxa (de esquerda), onde eu me inseria, e os ortodoxos orientados pelas lições de Chicago, direitistas e neoliberais de plantão.

Um importante ponto de inflexão eram as teorias de crescimento e de desenvolvimento econômico. No bojo deste último contemplavam-se questões como distribuição de renda, acesso ao ensino às populações de baixa renda, redução das desigualdades regionais e outros, como condicionantes para o avanço do Brasil em direção ao mundo desenvolvido.

As teses conservadoras – fartamente praticadas nos anos da ditadura brasileira – entretanto, consideravam que a pujança industrial e comercial deveriam preceder à disseminação dos benefícios às camadas mais pobres da sociedade brasileira. Quem não se lembra do todo poderoso ministro Delfim Neto e sua teoria de crescer o bolo antes de dividi-lo?

Eram tempos em que nos considerávamos “país de terceiro mundo”, ou “economia em desenvolvimento”, “periféricos” ou ainda “subdesenvolvidos”. Sonhávamos com o dia em que estaríamos inseridos na camada mais privilegiada das economias mundiais e que nosso povo pudesse participar de tal estado de coisas sem a pecha de “cidadãos de segunda”.

Alguns visionários, entretanto, acreditavam não ser justo e nem correto que o Brasil permanecesse nesse grupo de nações, porque possuíamos as condições necessárias para compor com aquele frequentado pelos ícones da economia mundial: EUA, Japão, Alemanha, França e outros.

Dentre eles o pensador e economista ídolo de todos nós que nos postávamos à esquerda: Celso Furtado. Na qualidade de maior teórico da economia brasileira, dizia ele (in Reflexões Sobre a Crise Brasileira) que “ ... O refinamento da sensibilidade e o estado de lucidez aguda que se manifestam em indivíduos superdotados nos momentos de crise social podem imprimir excepcional brilho a épocas consideradas de decadência. Mas somente uma liderança política imaginativa será capaz de conduzir as forças criativas para a reconstrução de estruturas avariadas e para a conquista de novos avanços na direção de formas superiores de convivência social.”

Sobre o desenvolvimento nacional disse ainda: “...Numa palavra, podemos afirmar que o Brasil só sobreviverá como nação se transformar numa sociedade mais justa e preservar sua independência política. Assim, o sonho de construir um país capaz de influir no destino da humanidade não se terá desvanecido.”

É inquestionável que o país mudou nos últimos oito anos. Ocorreu claro desenvolvimento econômico no sentido que almejávamos naqueles tempos. Parcelas das camadas mais modestas da sociedade brasileira ascenderam socialmente, dirigindo-se ou passando a efetivamente integrar a classe média ou, como querem alguns, reinventando uma “nova classe média”. Tudo isto ao sabor da maior crise já ocorrida na economia mundial, desde (ou inclusive) o crack de 30.

Batemos sucessivos recordes de produção e de consumo, a fome retrocedeu e o paradigma do desenvolvimento econômico aparentemente foi rompido. Na seara internacional é inquestionável que passamos a merecer mais respeito por parte das nações dominadoras do planeta. Da nossa tradicional posição de subserviência (que o digam os sucessivos empréstimos e cartas de intenções trocados com o Banco Mundial e o FMI) passamos a interlocutores cuja palavra é respeitada em todos os fóruns. Tudo isto ultrapassa o campo da mera opinião. São fatos alardeados por todas as mídias indistintamente.

As forças que compõem os setores mais conservadores da sociedade, costumeiramente afinadas com o pensamento ultraliberal e enamoradas da velha direita não conseguem reconhecer que o Brasil mudou. Pior ainda, tais mudanças foram recebidas e entendidas por seus destinatários, constituintes de de três quartos da população.

Muitos são os sintomas de tal situação. Um deles é a extraordinária taxa de aprovação de Lula, mesmo após um segundo mandato. Não há como fecharmos os olhos para os oitenta e tantos por cento que lhe foram recentemente creditados.

Passou o tempo em que bastava dizer que as parcelas menos privilegiadas não possuíam o devido discernimento e que “não sabiam votar”. Eram falácias cuja utilização atendia apenas à má fé daqueles que apenas buscavam sua manutenção no poder por mais alguns mandatos à frente.

O Brasil que sempre foi mantido à margem do progresso votou com esperança na eleição de 2002 e com reconhecimento em 2006 e 2010. A clareza de tais pronunciamentos superou até mesmo os piores momentos e alguns inaceitáveis argumentos que nortearam as campanhas políticas.

O povo vai continuar se manifestando em 2014. Esperto é quem se cala e ouve o que ele tem a dizer.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010



Louvor do Revolucionário
Bertold Brecht


Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?

Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.

Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.

Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

O circo eleitoral








Sílvio Lanna
Nem só de Tiririca vive o circo eleitoral brasileiro.
Já em 1959 os eleitores descarregaram 100.000 votos no rinoceronte Cacareco, morador do zoológico de São Paulo, constituindo-se no candidado mais votado. À época utilizavam-se as cédulas de papel, o que permitiu a proeza.
Nos dois últimos pleitos submeteram-se ao crivo popular inúmeros candidatos ridículos e carentes de amor próprio, evidenciando, eles e seus respectivos eleitores, nenhuma seriedade com relação ao voto.
Votar em Tiririca ou em algum outra excrescência política similar não significa expressar indignação com qualquer estado de coisas. Significa ridicular-se a si próprio e tratar a democracia como algo desimportante e dispensável. Como alguém pode afirmar que seu voto de protesto é dado a alguém que afirma não saber o que faz um deputado ou que está se candidatando para ajudar a própria família?
Não obstante, ele foi merecedor de quase um milhão e meio de votos. Esse imenso contingente de pessoas preferiu reproduzir a palhaçada do candidato na urna e lançar na Câmara Federal alguém que não tem obrigação de apresentar qualquer projeto, discutir qualquer tema e nem mesmo de lá comparecer. Afinal, ele foi sincero quando estabeleceu seus objetivos eleitorais e seus eleitores jamais poderão reclamar de sua atuação.
E não venham eles alegar que o quadro político nacional não apresentava opções, porque para os absolutamente descontestes existia a opção do voto nulo (que jamais defendi, mas que é uma real e eloquente opção).
Talvez seja esse o preço da busca da maturidade para um povo que somente nesta geração está isento da mácula de uma ditadura que, como todas, obscureceu as luzes da sabedoria e abafou o espírito crítico. Afinal, são estes os requisitos imprescindíveis a uma boa interpretação dos fatos e dos dizeres que orientam os agentes políticos e que impedem a aleatória condução dos eleitores.
(Tiririca Cover)
(diversos)

Bancada Evangélica



Sílvio Lanna
A mídia destaca notícia segundo a qual nestas eleições de 2010 a "bancada evangélica" da Câmara Federal teria crescido substancialmente, de 43 para 71 deputados. Cabe neste momento discutirmos o que seria tal bancada.
Por que evangélicos, católicos, espíritas, muçulmanos ou qualquer outro grupo religioso teria que possuir representação própria no Legislativo? Acaso não formamos - até por exigência constitucional - um Estado laico?
A razão para tal "especialização" política a meu ver reside na paupérrima estrutura partidária que historicamente mantemos. Nossos partidos, salvo raras exceções, jamais possuíram personalidade própria sob o aspecto filosófico. São meras agremiações muitas vezes dispostas a se bandear da esquerda para a direita (e vice versa) com extrema facilidade, defendendo bandeiras muito semelhantes e, no mais das vezes, prospectando votos sem qualquer escrúpulo ou demonstração de identidade.
Não é à toa que nossos políticos escondem - também com raras exceções - os nomes dos partidos que lhes dão guarita. No fundo o que se persegue é a vitória nas eleições, não importando como. Há ainda as legendas de aluguel, cujo único objetivo é acumular o maior volume de dividendos políticos para que sejam negociados ora com a situação, ora com a oposição, conforme soprem os ventos do poder.
E o que dizer dos partidos "nanicos", sempre dispostos a alugar seus votos, alternando suas posições políticas com a desenvoltura de um acrobata que atua de costas para a plateia? Nesse caldo de cultura surgem as bancadas especializadas, entre as quais a de maior destaque é a evangélica.
Não discordo da necessidade de se discutirem os temas que aparentemente as justificam. É no Congresso, sim, que devemos tratar questões como aborto ou união homossexual. Não são, entretanto, temas cativos de qualquer agremiação em especial, devendo ser objeto de posicionamento de cada partido, segundo sua orientação programática e filosófica.
De minha parte, sou evangélico presbiteriano e confesso que jamais votei em quem quer que seja simplesmente em razão de participar de tais bancadas (muito pelo contrário).
Enquanto o quadro partidário nacional não assumir pública e individualmente sua orientação, seus programas, além de sua conduta objetiva e coerente em face dos problemas nacionais, tais especializações florescerão.
Chega da repetição de que cada candidato defende "tudo pelo social", "políticas de segurança", "educação de qualidade" e outros, como estratégia de quem diz qualquer coisa por não ter nada a dizer...
Chega da falta de personalidade de tantos partidos, chega do oportunismo irresponsável, da pregação vazia, chega de tratar-nos como meras massas de manobra para o atingimento de objetivos escusos.
Infelizmente, porém, enquanto o poder continuar nas mãos ou nos desejos da mesma oligarquia que domina este país há séculos, a política nacional será tratada como mero instrumento e as campanhas continuarão como a atual: elaboradas nas latrinas dos salteadores do Estado.

domingo, 5 de setembro de 2010

A globalização da hipocrisia


Sílvio Lanna

O presidente Sarkozy promoveu a expulsão de setecentos ciganos do país, repatriando-os para a Romênia e a Bulgária. E isto é apenas o começo do projeto de limpeza étnica pretendido pelo líder francês, que pretende retirar do país os imigrantes tidos por ele como indesejáveis. Sarkozy, cuja esposa e primeira dama Carla Bruni é italiana (e, portanto, imigrante) faria inveja a um colega que também tinha o hábito promover "circulação compulsória" de pessoas: Adolf Hitler.

Já na Alemanha, onde os neonazistas se divertem atacando turcos e africanos, um tal de Peter Trapp, arvorando-se em autoridade no assunto, sugeriu a aplicação de testes de inteligência para os pretensos imigrantes. O assunto não foi avante (talvez tenham aplicado o teste no autor...).

Na Itália o presidente Berlusconi, de vida pessoal duvidosa e conduta política constantemente sob suspeita, adotou medidas que vão desde a multa até mesmo à detenção de seis meses a três anos.

A Espanha, que no ano passado deportou vários brasileiros que para lá se dirigiam legalmente, também adota a política de expulsões para os ilegais. Além disto, o governo propos medidas mais restritivas que incluem prisão e isolamento de até sessenta dias até o julgamento de cada caso.

Na Áustria, também exteriorizando seu ódio contra imigrantes o FPO, partido de extrema direita que deverá ser titular de um quarto dos cargos políticos do país, vem empreendendo forte política racista e xenófoba, prometendo prender e expulsar estrangeiros.

Pela Europa afora as manifestações se sucedem e principalmente os cidadãos de origem africana e sulamericana são a cada dia mais rejeitados e perseguidos.

Todos eles aparentemente se esquecem que sempre defenderam e praticaram a globalização econômica, expandindo para além das fronteiras suas empresas tornadas multinacionais. Investiram fortemente nos planos de privatização (pérolas da teoria globalizante), como aconteceu no Brasil nas áreas de telefonia, bancos e outras.

Todos sabemos que os interesses aí contidos não se limitam à diversificação na aplicação de recursos financeiros, mas também no esforço de minimização de custos (notadamente pelo pagamento de menores salários). Afinal, em nações "emergentes" o custo dos profissionais e os respectivos direitos sociais são bem menores que em suas matrizes.

Que o digam a Swarovski (austríaca), a Telefonica e o Santander (espanhóis), a Rhodia, a Citroen e o Leroy Merlin (franceses), a British Petroleum, a EMI e a Castrol (britânicas), a Fiat, a Ferrari e a Pirelli (italianas) e tantas outras.

Trocando em miúdos, os sulamericanos, turcos, africanos e demais indesejáveis prestam-se somente ao fornecimento de mão de obra barata e dócil, mas não são bem vindos nas casas de seus patrões.

Com isto o mundo tem se tornado um lugar pior para se morar ou viajar, a direita vem crescendo assustadoramente, a desigualdade de oportunidades acirra-se e o ser humano, mais ainda que antes, vem sendo classificado e rotulado por castas informais e não escritas.

É o sinal dos tempos em que a história vem sendo escrita somente por um redator, todo poderoso após o fim do equilíbrio geopolítico e muito à vontade após a queda do muro de Berlim.

sábado, 4 de setembro de 2010

Os três dias que abalaram o mundo

Sílvio Lanna
Três dias de paz e amor (e muita marijuana), barro à vontade, chuva, sexo sem culpa, estética psicodélica e música sem parar. Quinhentas mil pessoas se acomodaram como puderam naquela fazenda no município de Bethel entre 15 e 17 de agosto de 1969.
Era tempo de Beatles, de Apollo 11, mas também da contestação à Guerra do Vietnam, da Guerra Fria. Os hippies se despiam da violência e Hendrix explodia criatividade para depois detonar a si próprio.
Cultura e contracultura se estudavam cautelosamente, incertas sobre suas respectivas vinculações e consequências. A era da ingenuidade marcava seu fim em grande apoteose de sexo, drogas e rock in roll, tudo regado à rouca sensibilidade de Joplin e à viagem alucinada do The Who.

Poder à geração 60, que largava pelo caminho além das roupas também os preceitos e preconceitos de então. Era o fim de uma etapa sócio-política da humanidade, que jamais seria a mesma porque os anos 60 e seu povo haviam mudado para sempre.
A geração da flor e do amor já havia mostrado as unhas nos protestos de 68, que descolaram as mágoas e as ansiedades geradas pela Segunda Guerra, permitindo ao mundo seguir seu caminho sem carga desnecessária.
Na esteira de tanta libertação vieram também os anticoncepcionais que permitiram a explosão de sensualidade sem cuidados nas comunidades hippies e nas colinas de Bethel. E as mulheres fizeram amor e fizeram história - a sua própria. E se inseriram neste mundo machista definitivamente como protagonistas, sem que tenha sido necessário queimar soutiens.
Era época do pai se sentar à cabeceira da mesa e se servir antes dos demais. Hoje ele simplesmente não está lá e os filhos se servem como desejam, muitas vezes errando na dose.
Neil Armstrong pisava na lua e no Brasil nascia nas telas Macunaíma, nosso ícone contracultural, profético e antropofágico. Mas não nos devorou a todos. Ao contrário, integrou-se a nós agitando (mas não muito) a bandeira do jeitinho, verdadeiro protótipo da gambiarra nacional.
Na Inglaterra, também em 69, aparecia o Monty Python sacudindo e enviesando o humor mundial. Afastou o pastelão e inseriu na comédia, definitivamente, a irreverência e o non sense. Fez-nos rir de nossos tabus e de nossos dogmas, relaxando-nos a coluna vertebral.
O Concorde alça vôo em uma escala que prometia revolucionar a aviação comercial. Em Brasília, capital ainda pré-adolescente, tomava posse o General Médici, tingindo de chumbo os anos já tormentosos da ditadura brasileira.
Lá em Bethel, ao som de Joe Cocker e do Credence a imensa multidão comemorava a era de Aquarius. Foram para lá impulsionados por algo que os dominou, como em Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Talvez fosse a condução dos anjos indicando o caminho do futuro...
Não, não adianta reprisar o que ocorreu naqueles seiscentos acres naqueles três dias. Há fatos para os quais a história reserva cenários próprios, datas específicas e funções peculiares. E é a própria história que se incumbe de mostrar que a tentativa de reprodução de tais circunstâncias jamais consegue o brilho original e na maioria das vezes acaba dando em completo fracasso.
Restam lembranças e a consciência de que Woodstock, hoje aos quarenta e um, foi um marco que jamais será reproduzido. Até porque, aparentemente, existiu com objetivos pré-definidos. O que nos resta é avaliar o que fizemos com a liberdade e com os cacos das gerações passadas.
Enquanto isto, podemos relembrar algumas páginas marcantes daquele agosto:

Joe Cocker - A Little Help From My Friends

http://www.youtube.com/watch?v=uQYDvQ1HH-E&feature=fvsr

The Who - Pinball Wizard

http://www.youtube.com/watch?v=NTMrUj6ufgM&feature=related

Janis Joplin - Summertime

http://www.youtube.com/watch?v=A27FF2T2z2k

Joan Baez - One Day at a Time

http://www.youtube.com/watch?v=DDSNJ_Ky-r4

Creedence Clearwater Revival - I Put A Spell On You

http://www.youtube.com/watch?v=4R6nmKjcSeU

Jimi Hendrix - Hino Americano

http://www.youtube.com/watch?v=IqDbBVON2SM&feature=fvst

domingo, 1 de agosto de 2010

Pedagogia da violência



Sílvio Lanna
Muitos discutem apaixonadamente na mídia e nos botecos o chamado "Estatuto da Palmada". Primeiramente, o tema não passa de projeto de lei propondo alterações no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código Civil, de autoria da deputada federal Maria do Rosário. Pretende ela que ao ECA sejam incorporados alguns artigos, dentre os quais o de nº 18A, que resume bem a questão:
A criança e o adolescente têm direito a não serem submetidos a qualquer forma de pu punição corporal, mediante a adoção de castigos moderados ou imoderados, sob a alegação de quaisquer propósitos ou em locais públicos.
No CC a alteração ocorre no inciso VII do art. 1634 e é assim redigida:
Compete aos pais, quanto à pessoa dos filhos menores:
(...)
VII. Exigir, sem o uso de força física, moderada ou imoderada, que lhes prestem obediência respeito e os serviços próprios de sua idade e condição.
Em meu entender, a segunda parte do normativo incorporado ao ECA é desnecessária. Isto porque episódios de violência eventualmente praticados por professores ou a exposição de crianças ao constrangimento público já estão suficiente contemplados no suporte jurídico já em vigos, abrangente em boa medida.
Quanto à adoção de castigos pelos pais, sábia foi a legisladora ao estender dos limites do "moderado" até os do "imoderado" as condutas antijurídicas e passíveis de punição legal. Desta forma, nenhum castigo será tolerável, nenhuma forma "branda" de violência será permitida.
Não obstante a indignação de alguns pais e até mesmo a interferência de alguns "educadores" na defesa de tapinhas e pequenos safanões como inevitáveis na educação infantil, a alteração legal busca recolocar os filhos na condição que lhes pertence: a de seres humanos, que não necessitam aprender pela dor.
Uma pergunta parece-me inevitável: se permitimos a violência, ainda que "moderada" contra crianças, por que não a aceitamos também, na mesma medida, contra adultos? Por que não permitimos que uma ofensa verbal seja revidada também com um tapinha ou que possamos esmurrar, de forma "branda", o ofensor? Não seria um ato de completa coerência?
Só que no segundo caso o revide é certo, pois o agredido não se deixará atingir sem aplicar de volta a mesma agressão. A criança, entretanto, apanhará sem oferecer resistência ou replicar as pancadas. Até porque quem bate é fisicamente desproporcional e moralmente coator. Mero ato de covardia, portanto.
Não devemos imaginar que este exercício de retórica retrata simplesmente uma questão interna às unidades familiares na educação infantil. Vai muito além disto. Avança pela permissividade às "pequenas" torturas praticadas pela polícia no dia a dia das delegacias, pelos "módicos" abusos cometidos por alguns patrões no trato com seus empregados, pelas "leves" agressões sexuais de que são vítimas diversas crianças no interior de seus lares, enfim, as palmadas são somente uma nuance em um estado de violência maior. Não será ele redimido por nossa inércia e complacência.
Não por outro motivo o jornal Folha de S Paulo, em sua edição de fevereiro de 2009 referiu-se ao período militar no Brasil como "ditabranda". Ao ver do redator e dos responsáveis pelo periódico, foi branda porque produziu menos cadáveres que a similar na Argentina ou porque não matou o presidente deposto, como no caso dos hermanos chilenos. Não obstante a legião de torturados, de desaparecidos políticos, de assassinados, de mutilados física e moralmente ocorridos por aqui. De minha parte, cancelei imediatamente a assinatura para nunca mais refazê-la.
Essa é a linha da permissividade, que admite graduações para o mal, como se uma piadinha sobre negros não envolvesse preconceito racial, ou como se favelados fossem criminosos ou, ainda, como se moradores de rua fossem resultantes de seu próprio fracasso.
A educação dos filhos não necessita em nenhum momento descambar para a violência, a não ser que feltem argumentos ou capacidade para os pais lidarem com situações em que se aproximem os limites da paciência.
A sabedoria da palavra de Deus já determinava, em Efésios 6.4:
E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor.
Discordar da violência, entretanto, não é o mesmo que discordar da autoridade. Esta deve estar presente em todos os momentos em que seja necesária. Mesmo que alguns educadores contemporâneos possam imaginar de forma diferente, a melhor solução é aquela em que os pais orientam - e quando necessário mandam - e os filhos aceitam - e quando necessário simplesmente obedecem.
Lembremo-nos da imensa força de duas palavrinhas (talvez as mais poderosas já inventadas pelo ser humano): SIM e NÃO. São elas o mais perfeito antídoto para a violência caseira. Mas contêm em si um segredo: só funcionam se utilizadas em sua inteireza e alternativamente. Sim não pode ter gosto de não e vice versa. Da mesma forma, uma cadência interminável de qualquer delas também não produz os efeitos esperados. É como o tempero, onde açúcar e sal têm fortes personalidades e constituem-se em dicotomia culinária, mas atingem a perfeição quando são utilizados de forma dosada e complementar.
A sensação de contemporaneidade nos ilude em nosso dia a dia. Na educação ela pode produzir a falsa sensação de que liberdade é uma via sem barreiras, isenta de obstáculos. Mas não é assim. Basta que nos lembremos que, para mantermos a nossa, precisamos obedecer regras, gastar dinheiro, tempo e trabalho. Enfim, esforços às vezes imperceptíveis mas sempre presentes.
É tudo uma questão de consciência de que os limites que podem ser entendidos como usurpação não passam, na realidade, de prática didática. E esta é de crucial importância no processo evolutivo daqueles que apenas caminham para as turbulências adolescentes para, somente depois, atingirem a idade adulta (momento em que, teoricamente, poderão repetir nos filhos as experiências tidas ou sofridas na infância).

sábado, 31 de julho de 2010

A arapuca do dinheiro fácil




Sílvio Lanna
Mais um golpe financeiro na praça, sucedendo a tantos outros que costumeiramente frequentam a mídia. Desta vez os lugares escolhidos foram Belo Horizonte, a pequena Vazante e outras modestas cidades do Vale do Jequitinhonha. O "empresário" Thales Emanuelle Maioline, utilizando-se da arapuca denominada FIRV Consultoria e Administração de Recursos Financeiros Ltda., colocou em prática uma pirâmide financeira que lesou centenas de investidores. O montante até agora apurado atinge R$ 50 milhões.
O estelionatário está desaparecido e suspeita-se que os valores tenham sido transferidos para contas em paraísos fiscais. Para atrair suas vítimas ele afirmava remunerar as aplicações em 6% ao mês mais 30% após atingidos seis meses. Nada menos que inacreditáveis onze por cento ao mês!!!!!
Segundo o esquema, tratava-se de clube de investimentos em ações de primeira linha, como BB, Bradesco, Vale, BR e outras. A garantia de rentabilidade mínima, entretanto, nos indicaria a existência de hedge, constituindo-se em investimento conservador e de baixo risco. Absolutamente nada mais incompatível com tão elevada rentabilidade. Apesar das claríssimas evidências de que se tratava de uma pilantragem, várias pessoas entregaram todos os seus recursos ao nosso tupiniquim Bernard Madoff (golpista que lesou milhares de pessoas nos EUA).
O que justificaria tal ingenuidade? A meu ver, trata-se de mistura entre ingenuidade, desapego às normas de segurança e, inevitavelmente, ganância. Se cada um desses aplicadores houvesse pensado mais um pouco e procurado algum profissional competente para aconselhar-se, com toda a certeza não teria caído em oferta tão descabida. Agora é tarde.
É tarde também para as vítimas de outras maracutaias recentemente ofertadas com pompa e circunstância no Brasil.
Tivemos o golpe da Fazenda Boi Gordo, que prometia quase 40% de rentabilidade anual a quem se dispusesse a converter seu dinheiro em um pedacinho de um boi no pasto. Diziam seus administradores que o plantel ultrapassava as cem mil cabeças. Entretanto, quando a fraude foi descoberta, seriam necessárias, na realidade, 1,5 milhão de bovinos para lastrear os investimentos captados.
Na mesma linha houve ainda a Avestruz Master que prometia as mesmas operações e retornos e também gerou vítimas, alterando somente o bicho.
Mudando de ramo houve ainda a falcatrua da Brasil Container Ltda, em Contagem, que gerou cerca de cinco mil vítimas e montante superior a R$ 10 milhões, resultando em aproximadamente 1.000 processos judiciais com irrisórias chances de sucesso.
Quanto àqueles que desejam ampliar as possibilidades de renda para seus capitais, é bom lembrar que o assunto é para profissionais. Milagres não existem e ousadia é para quem sabe realmente o que faz e conhece os meandros do mercado financeiro.
Cair em uma arapuca destas é o mesmo que comprar um bilhete premiado por uma pequena parte de seu valor: a culpa não é só do estelionatário. A participação da "vítima" na operação não é somente constituída por seu rico dinheirinho, mas também por sua voracidade em auferir lucros e ganância em obter resultados financeiros muito acima dos normais.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

"Alguma Poesia" - 80 anos


Parabéns pelos oitenta anos de seu ingresso na cena literária brasileira e muito obrigado por nos encher de justo e conterrâneo orgulho.


Poema das Sete Faces
Carlos Drummond de Andrade


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
(...)
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
(...)

domingo, 11 de julho de 2010

A guerra que o mundo esqueceu

Sílvio Lanna

Em 11 de julho de 1995, há precisos quinze anos, ocorreu o Massacre de Srebrenica, quando mais de 8.000 bósnios muçulmanos (incluindo crianças e adolescentes) foram exterminados na região de Srebrenica, na Bósnia-Herzegovina, pelo exército sérvio.
A tragédia tem proporções similares às patrocinadas pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, incluindo-se no rol dos maiores genocídios já praticados na história da humanidade.
Algumas peculiaridades, entretanto, continuam desafiando o bom senso até o momento. A região do massacre, onde se concentravam mais de quarenta mil muçulmanos refugiados, civis e desarmados, era área mantida sob proteção da ONU, que lá possuía contingente militar. Isso não impediu, entretanto, que as tropas sérvias perpetrassem o ato de selvageria que marcou aquele 11 de julho.
Hoje sabe-se que os membros do Conselho de Segurança da ONU tinham informações de que a invasão sérvia era iminente e do altíssimo risco corrido pela população tutelada pelo órgão internacional. Também é verdade que, em face de tal situação alguns oficiais do exército da ONU sugeriram ataque aéreo como forma de impedir o massacre que se anunciava. Porém o governo holandes postou-se contra, impedindo a medida. Sem voz de comando específica para o enfrentamento dos invasores, os capacetes azuis teriam assistido passivamente ao genocídio, contribuindo com sua inércia para a sentença de morte assinada pelo comandante sérvio, general Ratko Mladic, até hoje foragido, e pelo líder sérvio da Bósnia, Radovan Karadzic, atualmente sob custódia do Tribunal Penal Internacional.
Karadzic, que dispensou advogado, assumindo sua própria defesa, alega que o genocídio não passa de um mito, apesar das evidências constituídas pelos milhares de corpos sepultados em valas comuns. Contra ele pesa ainda a acusação de que teria causado a morte de outras doze mil pessoas (em sua maioria civis), como comandante do cerco a Sarajevo, mantido durante quase quatro anos (de abril de 1992 a fevereiro de 1996).
A Guerra da Bósnia, que possibilitou tamanhas crueldades produziu cerca de duzentos e cinquenta mil mortos e aproximadamente dois milhões de desterrados e refugiados.
Os conflitos internos na ex-Iugoslávia são seculares, envolvendo povos que cultivaram animosidades entre si no decorrer da história, como os sérvios (cristãos ortodoxos), croatas (católicos romanos) e bósnios (muçulmanos). Esses povos constituíram seis regiões distintas e que formavam a unidade iugoslava: Sérvia (incluindo Kosovo e Voivodina), Croácia, Eslovênia, Montenegro, Bósnia e Herzegovina e Macedônia.
A união nacional foi mantida durante o domínio soviético e capitaneada pelo General Tito, até seu falecimento em 1980. A partir daí as rivalidades recrudesceram até que em 1987 estourou a guerra civil que culminaria pelo esfacelamento nacional e pela divisão do país que permanece até hoje.
Duas particularidades despontam no conflito: a conduta vacilante e muitas vezes inerte da ONU e o desinteresse das grandes potências (EUA e países europeus) pelo conflito e pelos atos de crueldade cometidos.
Os Estados Unidos não teriam mesmo qualquer incentivo para se interessarem pelo futuro da região. Afinal, lá não se produz petróleo e nem outros bens interessantes sob o aspecto econômico. Além disto, a possibilidade de lá cravarem uma base militar ou parte do escudo de mísseis há muito planejado (e recentemente negociado com o governo polonês) era irrisória em função da ainda persistente influência russa na região. Portanto, nem a diplomacia e nem os marines foram destacados para acompanhar ou para intervir no conflito. E o genocídio foi consumado sob os olhares complacentes da ONU e dos EUA.
Com relação às potências européias, viram-se constrangidas também a intervir em razão de questões que julgaram difíceis de contornar. Por um lado, a existência de alguns países de postura historicamente antagônica no apoio, uns aos bónios e outros aos sérvios. Por outro lado, temiam também que sua intervenção contra os massacres pudesse "importar" o conflito para dentro de suas fronteiras. Portanto, melhor seria não intervir na carnificina, em uma postura de "lavar as mãos" que reflete evidente covardia e, por que não dizer, cumplicidade.
A mídia, por sua vez, considerando não contar com os interesses e patrocínios dos Estados Unidos e da Europa, também relegou a segundo plano o conflito iugoslavo, cujas notícias foram parar no baú do esquecimento.

sábado, 10 de julho de 2010

Aos que vierem depois de nós


Bertolt Brecht
Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fonte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas condizuam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
se sentiam, sem mim, mais seguros, - espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais frequentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

domingo, 4 de julho de 2010

Cem mil contra o regime



Sílvio Lanna


Outro aniversário importante ocorrido no final do mês de junho: o da Passeata dos Cem Mil.
Em 28 de março de 1968 Edson Luís Lima Souto foi baleado e morto pela polícia, que invadiu o restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, onde faziam suas refeições os estudantes de baixa renda.
O momento político era dramático. A repressão da ditadura atingia grau intenso; a violência e a tortura eram praticadas normalmente pelos militares sob a alegação de combate à subversão.
O movimento estudantil, por sua vez, acirrou as manifestações de protesto em face da situação, todas reprimidas pela polícia com violência e prisões (chegaram a 300 no protestos ocorridos em 19 de junho, em frente à UFRJ).
Três dias depois, novo protesto dos estudantes ocorrido em frente à embaixada americana terminou com ainda mais violência. Foram cerca de oitenta feridos, quase mil presos e diversos carros da polícia destruídos, no episódio que ficou conhecido como "sexta feira sangrenta".
Tudo isto resultou na "Passeata dos Cem Mil", em 26 de junho, considerada a maior e mais importante manifestação popular em repúdio à ditadura. Estudantes, intelectuais, religiosos, artistas e populares concentraram-se em frente à Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, e caminharam até o prédio da Assembléia Legislativa em manifestação que durou três horas.
A partir dessa data outros fatos também importantes, como o congresso clandestino da UNE em Ibiúna (outubro de 1968) e outros, foram combatidos pela ditadura com ainda mais violência, prisões e torturas. Em 13 de dezembro do mesmo ano os generais impõem ao país o AI-5, institucionalizando a repressão e consolidando seu poder como absoluto, mergulhando o país em um período ainda mais tenebroso.

Páginas da resistência brasileira




Sílvio Lanna
Linguagem ferina, criatividade, humor agudo, crítica política, presença de espírito, irreverência em sua mais sublime expressão, além de outras características peculiares fizeram do tablóide O Pasquim um marco no jornalismo brasileiro, que fez aniversário recentemente.
Lançado em 26 de junho de 1969, manteve suas publicações até 11 de novembro de 1991 (edição nº 1072). Fundado por Jaguar, Tarso de Castro e Sérgio Cabral, com o passar do tempo a ele se juntaram Ziraldo, Millôr Fernandes, Claudius, Henfil, Paulo Francis, Ivan lessa, Fausto Wolf, Ruy Castro e outros importantes intelectuais. Quando da prisão de quase toda a equipe do jornal (de novembro de 1970 a fevereiro de 1971) ele quase foi fechado, não fosse pela intervenção de Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gáuber Rocha e outros, que o assumiram naquele período.
O Pasquim afrontou a ditadura militar, ridicularizou ícones e cutucou a sizudez nacional aterrorizada pelo regime de força. Foi também o porto onde atracaram grandes nomes da inteligência nacional, que contribuíram decisivamente para fustigar o regime e levar ao público leitor uma visão ácida, porém hilariante, da realidade nacional.
Foi um fenômeno editorial, chegando a atingir tiragens de até 250.000 exemplares. Os militares tudo fizeram para calar sua voz: censuraram, prenderam seus editores e coagiram anunciantes para retirada de patrocínios. Nada disto adiantou, entretanto, só tendo servido para aumentar a curiosidade - e as vendas - dos leitores.
A situação, com seus altos e baixos, durou até início da década de 80, quando a direita passou a utilizar-se de um argumento altamente convincente: explodir as bancas que vendiam jornais alternativos, como O Pasquim. A partir daí a publicação, que já vinha sofrendo agruras com a fuga de anunciantes, perdeu gradativamente também seus pontos de venda, sendo obrigada a encerrar as atividades no início da década de 90.
O jornal marcou seu espaço na história de nosso país pela coragem com que se manifestava, tendo sido a voz de muitos que foram obrigados a se calar pela violência do regime.
A TV Câmara produziu um excelente documentário sobre o tablóide, intitulado "O Pasquim - A subversão do Humor", com download na página http://www.camara.gov.br/internet/tvcamara/?lnk=COPIAR-ARQUIVO&tituloMateria=O-PASQUIM-A-SUBVERSAO-DO-HUMOR&selecao=ARQUIVO&materia=17536&programa=104&velocidade=56K .
É um documento histórico sensacional e que merece ser visto e revisto. O Pasquim serviu ainda de inspiração para os jornais Planeta Diário e Casseta Popular, que mais tarde dariam origem ao programa Casseta e Planeta.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A fé e as trinta moedas


Sílvio Lanna
Mais uma polêmica envolvendo jogadores da seleção brasileira capitalizou atenções nesta semana: a troca de farpas entre Kaká e o jornalista Juca Kfouri. Segundo o artilheiro, Juca o perseguia em razão de sua crença evangélica.
Juca afirmou-se ateu em video distribuído pela Internet e proferiu algumas afirmativas que, aparentemente, só comprovam o explícito preconceito afirmado por Kaká. Vejamos (parcialmente) o que disse o jornalista: "Kaká se engana e enfiou Jesus onde Jesus não foi chamado. Critico sim o merchandising religioso que ele e outros jogadores da Seleção costuma fazer, tentando nos enfiar suas crenças goela abaixo. Um tal exagero que a Fifa tratou de proibir..."
Agora, prestemos atenção ao outro lado da moeda: há outras peças de merchandising que o sr. Juca não critica. É o caso da cerveja Brahma, cujas inserções publicitárias são repetidamente divulgadas em todas as mídias e em vestuários dos jogadores. Mais ainda, vincula o uso da bebida à força dos "guerreiros brameiros" e às vitórias que poderá a seleção obter.
Alguém em sã consciência acha que esporte e álcool formam uma combinação feliz? Não acredito. O que ocorre é que a Brahma (assim como poderia ser o cigarro ou outra droga) passa a ser livremente aceita após despejar milhões de reais em verbas de patrocínio.
Portanto, seu Juca, não precisamos discutir o mérito de professarmos ou não uma religião. Vamos nos ater simplesmente aos atos de publicidade.
Por que o senhor acha que a crença de Kaká não pode nos ser enfiada "goela abaixo" da mesma forma que a cerveja, o guaraná, o banco e outros?
Aparentemente o senhor não é somente um ateu, é também um mercenário...

A AMEAÇA DOS TRANSGÊNICOS


Sílvio Lanna
A Comissão Técnica de Biossegurança (CTNBio), órgão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior teve em sua pauta de junho a liberação do arroz transgênico LL62 para plantio em território brasileiro.
São sementes geneticamente modificadas e patenteadas pela multinacional Bayer para resistir ao uso do agrotóxico glufosinato de amônio (também fabricado pela Bayer). Desta forma, a praga morre mas a planta não sofre nenhum dano. Em consequência aumenta a produtividade, melhora a aparência e cresce o lucro.
Tudo bem, não fossem as acusações que sofrem as variedades transgênicas de arroz, milho, soja e outras. No caso específico do glufosinato que, incorporado ao arroz, passa aos tecidos de seus consumidores após a ingestão, testes efetuados em ratos provocaram, dentre outros males, alterações no sistema nervoso, tremores, consulsões e reações alérgicas. Além disto, ficou comprovado que seus resíduos se acumulam no fígado e nos rins (com consequências certamente perigosíssimas), sendo ainda secretado no leite (o que compromete até mesmo aqueles indivíduos que não participam diretamente de seu consumo).
No aspecto econômico as variedades transgênicas têm também provocado sérios danos. Induzem o surgimento de ervas daninhas dotadas de resistência e possuem alto poder de dominação sobre outras espécies cultivadas em sua vizinhança. Há registros de lavouras inteiras de variedades tradicionais que foram tomadas pelas variedades modificadas, até o ponto que aquelas vieram a desaparecer.
Há também casos de plantas concorrentes, como o arroz vermelho no Rio Grande do Sul. Trata-se de variedade considerada daninha e compatida atualmente com herbicidas específicos. Quando ocorre o cruzamento do transgênico com o vermelho, o que resulta é uma erva prejudicial altamente resistente ao veneno, cujo combate, em princípio, se faz com a utilização de grandes quantidades de produtos químicos, todos prejudiciais à saúde humana.
Entidades como o Greenpeace e a Embrapa vêm continuamente levantando vozes na tentativa de frear a utilização de variedades transgênicas no país, mas as dificuldades são grandes, basicamente por dois fatores:
- Os brasileiros comuns temos pouco conhecimento sobre o tema, que nem mesmo é personagem dos telejornais diários. Assim, aqueles que condenam a manipulação genética de alimentos frequentemente são considerados retrógados e suas tentativas tidas como enfrentamento à modernidade e ao desenvolvimento.
- Os valores envolvidos são gigantescos, uma vez que companhias como a Bayer, a Monsanto e outras pretendem a padronização e a oligopolização da oferta de sementes em todo o mundo. Afinal, uma vez imposta a utilização de seus produtos (devidamente patenteados), que outras empresas poderão competir em custos e preços finais? Acrescente-se a isto o fato de que os defensivos agrícolas para os quais a manipulação foi realizada também são produzidos por elas.
A Bayer já esteve envolvida em vários escândalos ligados à produção de cereais geneticamente modificados. Em 2006 verificou-se que parte dos estoques norte-americanos de arroz estavam irremediavelmente contaminados pela variedade Liberty Link LL601, produzida pela Bayer CropScience. O fato provocou prejuízos de aproximadamente um bilhão e meio de dólares e, quando a contaminação foi percebida, tinha atingido também alguns países importadores do produto. Considera-se que mais de sessenta por cento do volume de exportações foi danificado pelo LL601. Importante lembrarmo-nos de que a utilização dessa variedade foi autorizada pelo governo americano exclusivamente em plantios restritos a lavouras experimentais.
Esse escândalo, principalmente por ter ocorrido nos EUA, serviu para que o resto do mundo prestsse mais atenção ao problema. Assim é que no caso da "nossa semente LL62", as pressões exercidas pelo Greenpeace, Embrapa e outros órgãos científicos nacionais provocaram na Bayer a retirada do pedido de autorização por parte do CNTBio. O processo, há mais de um ano na pauta, foi suspenso, segundo a empresa, para "ampliar o diálogo" com as entidades nacionais.
Mero recuo estratégico, entretanto, pois a empresa temia pela negativa de autorização por parte do órgão estatal. Afinal, o pedido poderá ser novamente colocado em pauta quando a empresa desejar.
É importante, portanto, que nos mantenhamos informados sobre temas coo esses, antes que seja tarde demais e nosso arroz com feijão de todo dia carregue consigo ameaças ainda nem imaginadas por nós.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O homem que enxergava o futuro


Sílvio Lanna
Há sessenta e um anos atrás Eric Arthur Blair publicava aquele que viria a ser um dos romances mais lidos e relembrados da história da literatura mundial. A obra, inicialmente denominada "O Último Homem da Europa", foi traduzida pelo mundo afora, transformou-se em produções cinematográficas, inspirou discussões acadêmicas e até hoje mantém sua atualidade. Falamos, na realidade, de George Orwell, pseudônimo adotado pelo autor, e de sua obra "1984". A intromissão de terceiros em nosso cotidiano e, principalmente, em nossa intimidade foi o tema brilhantemente trazido por ele em seu universo ficcional e que se transformou em realidade no século XXI.
Já se vão décadas após 1984, época ambiental do filme, mas o Grande Irmão está cada dia mais presente em nossas ruas, praças, residências, centros de consumo, instituições financeiras, fiscalizando-nos diuturnamente e repetindo à exaustão a célebre frase orwelliana "Big Brother is watching you". É, estamos mesmo sendo observados a cada momento e isto parece não nos incomodar. Já se foi o tempo em que a presença de câmeras bisbilhoteiras nos indignava. Hoje pertencem elas ao cotidiano das grandes cidades e passam despercebidas, não obstante ter-nos na mira todo o tempo. Talvez seja porque trabalham no mais completo silêncio. Acostumamo-nos a interagir somente com aquilo que nos desperta a atenção pelas cores, luzes ou gritos. Afinal, quem se lembra do mendigo solitário que dorme silencioso no passeio? Ou do discreto porteiro por quem passamos por anos a fio no prédio? Ou ainda daquele colega dos bancos escolares que entrava e saía da sala sorrateiramente, mantendo-se mudo durante as aulas?
É, parece que invasão de privacidade tornou-se uma expressão obsoleta... Temos, entretanto, o outro lado da moeda. Se o cidadão de hoje não se importa
em ter a vida monitorada cotidianamente, parece adorar também imiscuir-se na vida de terceiros, para dedicar-se ao cultivo da fofoca e da maledicência. Aí o cidadão se transforma. De investigado incorpora-se nas vestes do Grande Irmão e passa a investigar os outros. E isto em rede nacional, nas sucessivas edições do fenômeno Big Brother. Lembremo-nos de que o BBB 10 registrou picos de até 65% de todas as tvs ligadas no país. No quesito ligações telefônicas essa edição chegou a receber, para um só evento, mais de 100 milhões de chamadas, com as quais os ligadores desembolsaram nada menos que 30 milhões de reais. Convenhamos, nada no país consegue uma atenção e um retorno financeiro tão brilhante e em tão pouco tempo. Os números são impressionantes e nos indicam do que é que o povo brasileiro realmente (e do resto do mundo) gosta. Nenhum outro programa ou evento é páreo. E tudo isto prá quê? Simplesmente para especular a convivência de estranhos que nada de extraordinário fazem. Conversam, brigam, vão ao banheiro, fazem sexo, xingam, dançam, comem, enfim rigorosamente tudo o que nósa mesmos fazemos em nossas casas. Só que nas nossas casas não existe mais aquele buraco de fechadura que usávamos quando crianças. Nem aquele alto de muro sobre o qual buscávamos alguma novidade no quintal do vizinho. No mundo do consumo e do capital o buraco é pago e o alto do muro é alugado - e caro.

Orwell, se pudesse, estaria desferindo gargalhadas irônicas e debochando dos milhões e milhões de telespectadores que, por falta do que mais fazer, investem
seu tempo e seu dinheiro na greta da porta virtual que está disponível a um simples toque no botão do aparelho de TV.
Entre uma risada e outra talvez pense: onde estará o Winston Smith desse tempo? Será que não tem ninguém que se deu conta da realidade e tentou mudá-la? Mas também estará plenamente satisfeito por ter vislumbrado com tanto realismo um mundo que, para a década de quarenta do século passado somente poderia ser concebido pelo uso da mais fértil imaginação. E, convenhamos, Orwell não imaginava a repercussão histórica de sua obra, senão teria concebido outro título, mais perene e abstrato com relação ao tempo.

Parabéns, George, você se tornou famoso, internacionalizou-se, virou adjetivo, sua vida foi vasculhada em busca dos detalhes, soubemos de sua doença, fomos aos lugares que frequentou, estivemos no quarto onde a obra foi escrita, buscamos a fonte de sua inspiração, contabilizamos o número das edições do livro, também o de exemplares e de traduções, enfim, especulamos você e sua vida ao máximo que conseguimos. Nós nos vingamos, e com a mesma moeda...

O galo impertinente



José J. Veiga
Todo mundo sabia que se andava construindo uma estrada naquela região, pessoas que se aventuravam por lá viam trabalhadores empurrando carrinhos, manobrando máquinas ou sentados à sombra, cochilando com o chapéu no joelho ou comendo de umas latas que a empresa fornecia: diziam que eram rações feitas em laboratórios, calculadas para dar o máximo de rendimento com o mínimo de enchimento. Quem fiajava de automóvel conseguia interromper a atividade dos engenheiros, eles vinham solícitos com o capacete na mão dar explicações, mostrar o projeto no papel, esclarecer o significado de certos sinais que só eles entendiam. Mas a obra estava demorando tanto que nos habituamos a não esperar o fim dela; se um dia a boca da estrada amanhecesse com uma tabuleta novinha convidando o povo a passar, acho que ninguém acreditaria, imaginando tratar-se de brincadeira.
Com o passar do tempo os engenheiros foram ficando nervosos e mal-humorados, dizia-se que eles desmanchavam e refaziam trechos enormes da estrada por não considerá-los à altura de sua reputação. Não estavam ali construindo uma simpes estrada; estavam mostrando a que ponto havia chegado a técnica rodoviária. Houve protestos, denúncias, pedidos de informação, mas como as autoridades não sabiam mais de que estrada se tratava, nenhuma resposta era dada; e mesmo que respondessem seria em linguagem tão técnica que ninguém entenderia, nem os mais afamados professores, todos por essa altura já desatualizados com a linguagem nova.
Quem tinha de atravessar a região ia abrindo picadas pelo mato, passando rios com água pelo peito, subindo e descendo morros cobertos de malícia e unha-de-gato. Quando se perguntava a um engenheiro mais acessível quando era que a estrada ia ficar pronta, ele fechava a cara e dizia secamente que a estrada ficaria pronta quando ficasse.
Um dia - as preocupações eram outras, ninguém pensava mais no assunto - anunciaram que a estrada afinal estava pronta e ia ser inaugurada. Depois de uma inspeção preliminar feita altas horas da noite à luz de archotes (com certeza para evitar entusiasmos prematuros), marcou-se o dia da inauguração com a passagem de uma caravana oficial.
O povo não pode ver a estrada de perto nesse dia, tivemos que ficar nas colinas das imediações, havia guardas por toda parte com ordem de não deixar ninguém pisar nem apalpar. Muita gente levou binóculos e telescópios; os telescópios eram difíceis de armar devido à irregularidade do terreno, mas os donos acabaram dando um jeito e conseguiram focalizar a estrada. Quem não tinha aparelhos óticos arranjou-se da melhor maneira, fazendo óculos com as mãos ou simplesmente levando a mão à testa para vedar um pouco a claridade do sol que o asfalto refletia com violência.
Mesmo de longe via-se que a estrada era uma obra magnífica. Havia espaço arborizado entre as pistas, as árvores ainda pequenas, mas prometendo crescer com vigor; trilhas para ciclistas, caminhos para pedestres. As pontes eram um espetáculo, e tantas que se podia pensar que tinham sido feitas mais para mostrar competência do que para resolver problemas de comunicação; em todo caso, lá estavem bonitas e sólidas, pelo menos de longe.
Diante da importância da estrada, com suas pontes, túneis e trevos, o povo esqueceu a longa espera, herança de pais a filhos, esqueceu os parentes e amigos que haviam morrido sem ver aquele dia, esqueceu as voltas que teve que dar, e agora só cuidava de elogiar o trabalho dos engenheiros, o escrúpulo de não entregarem uma obra feita a três pancadas. Alguém sugeriu a colocação de uma placa na estrada, com os nomes de todos que haviam trabalhado nela, mas quando se descobriu que não havia oficina capaz de fazer uma placa do tamanho necessário, não se falando na massa de pesquisa que seria preciso para um levantamento completo, as buscas em documentos antigos, a idéia foi abandonada por inviável.
É triste dizer, mas a euforia durou pouco. Logo depois da inauguração, certas coisas começaram a acontecer, parece mesmo que já no dia seguinte. Pessoas que iam experimentar a excelência da estrada voltavam assustadas, jurando nunca mais passar lá - quando não caíam num mutismo de fazer dó, como se tivessem sofrido um abalo muito grande por dentro. E não podia ser invenção, todos os informes coincidiram.
Os viajantes contavem que iam muito bem pela estrada, embalados pela lisura do asfalto, quando de repente, saído não se sabe de onde, um galo enorme aparecia diante do carro. Não adiantava tocar buzina, ele não se desviava; nem adiantava aumentar a velocidade, ele não se deixava apanhar. Era como se ele fosse puxando um carro para um embasamento de ponte, uma árvore, um marco quilométrico. Quando o motorista conseguia manobrar e escapar do desastre, o galo aplicava outro expediente: saltava para cima do carro e martelava a capota com o bico, e com tanta força que perfurava o aço, deixando o carro como se um malfeitor o tivesse atacado a golpes de picareta.
Nunca se chegou a acordo quanto ao tamanho do galo, as descrições feitas pelos viajantes emocionados iam de pinto a jumento. Talvez cada um tivesse sua razão: quem poderia afirmar que ele não escolhesse um tamanho para cada ocasião? As muitas expedições formadas para apanhá-lo acabaram em completto fracasso. Chegaram a levar redes de pesca manejadas por pescadores exímios, mas sempre o galo escapava pelos vãos da malha. Depois dos pescadores foi a vez dos caçadores, equipadas com armas do último tipo; chegavam, tomavam posição, apontavam - erravam; quando acertavamn, em vez de verem o espalhar de penas, ouviam um guincho de ricochete, mais nada.
Como último recurso apelou-se para o ministério da guerra. Primeiro mandaram um canhão pesado, que só serviu para abrir rombos no leito da estrada. Depois recolheram o canhão e mandaram um tanque com ordem de destruir o galo de qualquer maneira.
Quando o galo apareceu, o tanque perseguiu-o por uma certa distância, como querendo dar-lhe uma oportunidade de fugir inteiro e não voltar. Parece que o galo não entendeu, e continuou fagueiro pensando que estava arrasando o tanque para algum abismo. Os soldados perderam a paciência e abriram fogo, vários disparos a curta distância. O galo não foi atingido, mas o tanque começou a soltar fumaça pelas juntas, rolos cada vez mais escuros, de repente deu um estouro abafado, como de jaca caindo, e pegou fogo de uma vez. Quando as labaredas cessaram, no chão fsó ficou um monte de metal fundido.
Ninguém quis mais usar a estrada, ela foi ficando esquecida e hoje é como se nunca tivesse existido. Se um dia uma raça de homens novos derrubar a mata que lá existir, certamente notará aquela trilha larga coberta de capim e plantas rasteiras; e, investigando mais para baixo, descobrirá a capa de asfalto, os túneis, as pontes, os trrevos e tudo mais , e não deixará de admirar a perfeição com que se construíram estradas neste nosso tempo. Naturalmente tomarão fotografias, escreverão relatórios, armarão teorias para explicar o abandono de uma estrada tão bem acabada. O monte de metal fundido será um enigma, mas algum sábio o explicará como pedaço de planeta caído do alto espaço; talvez o levem para um museu e incrustem uma placa nele para informação aos visitantes.
Quando ao galo impertinente, se ainda existir, seria interessante saber que explicações os descobridores encontrarão para ele e que fim lhe destinarão - mas isso, reconheço, é uma indagação que está muito além do alcance atual da nossa imaginação.


quinta-feira, 3 de junho de 2010

A última crônica

Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de correr com êxito mais uns anos nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódio. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "Assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar para fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, torna-se mais evidente pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional de família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os dois lados, a assegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção de bolo com a mão, larga-a no pratinho - um bolo simples, amarelo escuro, apenas uma fatia triangular.

A negrinha contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um aninalzinho. Ninguém mais observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto serve a Coca Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a manininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente, põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a seus pais que se juntam, discretos: "Parabéns prá você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que caiu no colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.