quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Vox populi


Sílvio Lanna
Passado o período eleitoral e consolidada a vitória da Dilma no segundo turno, passo a imaginar o que aconteceu no Brasil nos últimos oito anos sob o comando de Lula e o que resultou na presente eleição dela para mais quatro.

Os números macroeconômicos brasileiros – e isto não é opinião, é estatística – revelaram uma situação intensamente discutida e que sustentou acalorados debates entre economistas de esquerda e de direita nos anos oitenta. Lembro-me dos anos de faculdade de economia e das discussões resultantes da contraposição entre a turma heterodoxa (de esquerda), onde eu me inseria, e os ortodoxos orientados pelas lições de Chicago, direitistas e neoliberais de plantão.

Um importante ponto de inflexão eram as teorias de crescimento e de desenvolvimento econômico. No bojo deste último contemplavam-se questões como distribuição de renda, acesso ao ensino às populações de baixa renda, redução das desigualdades regionais e outros, como condicionantes para o avanço do Brasil em direção ao mundo desenvolvido.

As teses conservadoras – fartamente praticadas nos anos da ditadura brasileira – entretanto, consideravam que a pujança industrial e comercial deveriam preceder à disseminação dos benefícios às camadas mais pobres da sociedade brasileira. Quem não se lembra do todo poderoso ministro Delfim Neto e sua teoria de crescer o bolo antes de dividi-lo?

Eram tempos em que nos considerávamos “país de terceiro mundo”, ou “economia em desenvolvimento”, “periféricos” ou ainda “subdesenvolvidos”. Sonhávamos com o dia em que estaríamos inseridos na camada mais privilegiada das economias mundiais e que nosso povo pudesse participar de tal estado de coisas sem a pecha de “cidadãos de segunda”.

Alguns visionários, entretanto, acreditavam não ser justo e nem correto que o Brasil permanecesse nesse grupo de nações, porque possuíamos as condições necessárias para compor com aquele frequentado pelos ícones da economia mundial: EUA, Japão, Alemanha, França e outros.

Dentre eles o pensador e economista ídolo de todos nós que nos postávamos à esquerda: Celso Furtado. Na qualidade de maior teórico da economia brasileira, dizia ele (in Reflexões Sobre a Crise Brasileira) que “ ... O refinamento da sensibilidade e o estado de lucidez aguda que se manifestam em indivíduos superdotados nos momentos de crise social podem imprimir excepcional brilho a épocas consideradas de decadência. Mas somente uma liderança política imaginativa será capaz de conduzir as forças criativas para a reconstrução de estruturas avariadas e para a conquista de novos avanços na direção de formas superiores de convivência social.”

Sobre o desenvolvimento nacional disse ainda: “...Numa palavra, podemos afirmar que o Brasil só sobreviverá como nação se transformar numa sociedade mais justa e preservar sua independência política. Assim, o sonho de construir um país capaz de influir no destino da humanidade não se terá desvanecido.”

É inquestionável que o país mudou nos últimos oito anos. Ocorreu claro desenvolvimento econômico no sentido que almejávamos naqueles tempos. Parcelas das camadas mais modestas da sociedade brasileira ascenderam socialmente, dirigindo-se ou passando a efetivamente integrar a classe média ou, como querem alguns, reinventando uma “nova classe média”. Tudo isto ao sabor da maior crise já ocorrida na economia mundial, desde (ou inclusive) o crack de 30.

Batemos sucessivos recordes de produção e de consumo, a fome retrocedeu e o paradigma do desenvolvimento econômico aparentemente foi rompido. Na seara internacional é inquestionável que passamos a merecer mais respeito por parte das nações dominadoras do planeta. Da nossa tradicional posição de subserviência (que o digam os sucessivos empréstimos e cartas de intenções trocados com o Banco Mundial e o FMI) passamos a interlocutores cuja palavra é respeitada em todos os fóruns. Tudo isto ultrapassa o campo da mera opinião. São fatos alardeados por todas as mídias indistintamente.

As forças que compõem os setores mais conservadores da sociedade, costumeiramente afinadas com o pensamento ultraliberal e enamoradas da velha direita não conseguem reconhecer que o Brasil mudou. Pior ainda, tais mudanças foram recebidas e entendidas por seus destinatários, constituintes de de três quartos da população.

Muitos são os sintomas de tal situação. Um deles é a extraordinária taxa de aprovação de Lula, mesmo após um segundo mandato. Não há como fecharmos os olhos para os oitenta e tantos por cento que lhe foram recentemente creditados.

Passou o tempo em que bastava dizer que as parcelas menos privilegiadas não possuíam o devido discernimento e que “não sabiam votar”. Eram falácias cuja utilização atendia apenas à má fé daqueles que apenas buscavam sua manutenção no poder por mais alguns mandatos à frente.

O Brasil que sempre foi mantido à margem do progresso votou com esperança na eleição de 2002 e com reconhecimento em 2006 e 2010. A clareza de tais pronunciamentos superou até mesmo os piores momentos e alguns inaceitáveis argumentos que nortearam as campanhas políticas.

O povo vai continuar se manifestando em 2014. Esperto é quem se cala e ouve o que ele tem a dizer.

terça-feira, 2 de novembro de 2010