terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O menino perdido


Pablo Neruda

Lenta infância de onde 
como de um pasto comprido 
cresce o duro pistilo, 
a madeira do homem. 
Quem fui? O que fui? O que fomos? 
Não há resposta. Passamos. 
Não fomos. Éramos. Outros pés, 
outras mãos, outros olhos. 
Tudo foi mudando folha por folha, 
na árvore. E em ti? Mudou a tua pele, 
o teu cabelo, a tua memória. Aquele que não foste. 
Aquele foi um menino que passou correndo 
atrás de um rio, de uma bicicleta, 
e com o movimento 
foi-se a tua vida com aquele minuto. 
A falsa identidade seguiu os teus passos. 
Dia a dia as horas se amarraram, 
mas tu já não foste, veio o outro, 
o outro tu, e o outro até que foste, 
até que te arrancaste 
do próprio passageiro, 
do trem, dos vagões da vida, 
da substituição, do caminhante. 
A máscara do menino foi mudando, 
emagreceu a sua condição enfermiça, 
aquietou-se o seu volúvel poderio: 
o esqueleto se manteve firme, 
a construção do osso se manteve, 
o sorriso, 
o passo, o gesto voador, o eco 
daquele menino nu 
que saiu de um relâmpago, 
mas foi o crescimento como um traje! 
Era outro o homem e o levou emprestado. 
Assim aconteceu comigo. 
De silveste 
cheguei a cidade, a gás, a rostos cruéis 
que mediram a minha luz e a minha estatura, 
cheguei a mulheres que em mim se procuraram 
como se a mim tivessem perdido, 
e assim foi sucedendo 
o homem impuro, 
filho do filho puro, 
até que nada foi como tinha sido, 
e de repente apareceu no meu rosto 
um rosto de estrangeiro 
e era também eu mesmo: 
era eu que crescia, 
era tu que crescias, 
era tudo, 
e mudamos 
e nunca mais soubemos quem éramos, 
e às vezes recordamos 
aquele que viveu em nós 
e lhe pedimos algo, talvez que se recorde de nós, 
que saiba pelo menos que fomos ele, que falamos 
com a sua língua, 
mas das horas consumidas 
aquele nos olha e não nos reconhece.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Gafes nossas de cada dia...





Tentando capitalizar qualquer coisa que pudesse atingir Dilma 
o deputado de esquerda, digo, direita,  digo nenhum dos dois 
(não sei em que posição ele se encontra neste momento), 
Roberto Freire, caiu em uma pegadinha ridícula. 
Diziam que as notas de real viriam com a inscrição "Lula seja louvado". 
Imediatamente ele disparou em seu twitter: 


Dialética nossa de cada dia...




terça-feira, 12 de junho de 2012

Inspirem-se


Enfeitem-se 









                                                                           Acalentem-se...









Abracem-se...








                                                               Protejam-se...







  Troquem frases de amor...








                                                               Cuidem de suas crias...







Sejam carinhosos...






                                                 Façam cafuné...  






Troquem olhares comprometedores...








Mas não se esqueçam daquele presentinho que sintetiza seus sentimentos...




quarta-feira, 6 de junho de 2012

Saudade


                                                                                                          Sílvio Lanna

Aferrolhou a porta, que rangiu sob o peso de tantos anos de serventia.

Era o casarão dos Borges, que testemunhara a riqueza das pepitas rolando ao leito do Ribeirão da Agonia até a aspereza dos tempos de seca que agora vivia. Seca de água, seca de consolo.

Ferrolho na porta, recolheu-se a seus pensamentos e, como sempre fazia todos os dias, ele rememorava particularmente Alzira. E perdeu-se novamente no mar de nostalgia e de saudades que brotavam acalentadas por ausência tão intensa.

Dormiu.

Manhã renascida, entregou-se à lida. Mão na enxada, abateu o mato que teimava por entre as alfaces e as couves. Pé na estrada foi estar no curral onde Zé Carneiro já se desincumbia da tiração do leite e do soltar a vacada pasto acima.

O andar já não mais ajudava, trôpego que estava.  As vistas já não percebiam com a clareza de antes que uma nova safra de margaridas ornava o terreiro, ou que os ipês amarelos mesclavam-se ao verde do pasto, qual bandeira pátria por Deus hasteada.

Nada podia, a não ser desfazer-se da propriedade que durante os últimos setenta anos fôra sua morada e seu alento. Mas, e fazer o quê depois?

Aflorando em meio a tanta tristeza tinha também as recordações dos anos felizes ao lado de Alzira – quarenta e tantos – que tão bons foram, tanto de doce lembrança largaram. Trouxeram também Modesto Júnior, Ricardo e Maria do Céu. Os dois, já de muito prá São Paulo, raramente tornavam à terra que os parira – apenas três vezes nos últimos dez anos. Também não ligavam – telefone não havia. Nem escreviam – dava gastura.

Já Maria do Céu, não. De mês em mês dava as caras, permitida que estava por Jaquetão, marido que o destino lhe reservara (ou lhe condenara). Tornava a ver o pai quase sempre na tardinha do dia, para retornar pro almoço de amanhã. Na roda das horas que corriam ainda sob a luz evitava contar as agruras sofridas de um marido bruto, um animal quando movido pela cachaça.

Falava do café, cuja panha já se avizinhava e que deveria somar mais de cem sacas, já limpo. Falava também dos queijos que lhe tomavam parte do dia e que embalavam pensamentos nascidos lá na sua infância e que hoje, já rotos pela desesperança, tinham tomado cor de foto velha, amarelecidos e embolorados.

Não falava dos desejos de adolescente, que tanto lhe incendiavam a alma, porém impedidos que foram pelo pai. Desejara também ir para São Paulo com os irmãos, pra ver cinema, andar pelas ruas lotadas de gente, sentir cheiro de fumaça. Tudo o que não tinha naquele canto esquecido do mundo, emoldurado por um riacho que também era Agonia.

Avançando a noite entremeio às mesas, portas e janelas, era hora de dormir, a partir da bênção paterna, sempre fria e automática.

Pronto, estava ele novamente só, cada vez mais só, já começando a fazer parte da paisagem e deixando ser o cabra vigoroso que havia erguido tudo aquilo a poder do muque e do trabalho de sol a sol.

A partida de Alzira apressara a decadência que a idade se incumbiria de providenciar. Não era qualquer saudade, era uma saudade funda que alcançava até os pontos mais obscuros de sua alma. Era dolorida também, a ponto de deixar vontade de esquecer o mundo, os filhos ingratos, as criações e até mesmo os ipês que se coloriam mais e mais só para tentar trazer um pouco de vida à sua morte latente.

A aragem fria anunciava mais um inverno, a neblina já subia do brejo que ladeava o Agonia e a cerração já comparecia forte na noite gelada. O rangido da cama ajudava a esfriar mais, não era época para atravessar as noites acompanhado da insônia. Nada mais, era só esperar de novo a manhã com seus raios de calorzinho bom.

Desaferrolhou a porta para de novo tomar o caminho do curral, só que desta vez com o chão molhado de sereno e com as Angolas cantando mais espaçado, frio que estava.

Tomou seu rumo mais uma vez. Passou pelo curral e nem atendeu ao bom dia de Zé Carneiro. Foi visto atravessando a porteira da Fazenda das Cruzes e subindo o pasto do seu Levindo.  Dobrou naquelas alturas, sob as moitas de bambu que rangiam ao vento constante e nunca mais foi visto.

Todo dia é dia de Índio...


Nesta segunda o Banco Central interviu no Banco América do Sul, pequena instituição financeira que operava principalmente nos famosos empréstimos consignados. Detentor de uma carteira de créditos e de financiamentos da ordem de 8 bilhões de reais, o Bacen já identificou fraudes superiores a 1 bilhão.

O banco utilizou-se, dentre outros, do caminho tradicional de algumas fraudes financeiras já operadas por banqueiros no país: o lançamento de operações de crédito falsas e consequente desvio dos valores para contas não vinculadas ao banco e nem a seus responsáveis legais. A sangria em seus cofres torna sua situação insustentável e a bomba relógio (ou o "mico", como queiram) explode nas mãos dos empregados, aplicadores e do governo. Isto porque o interventor não consegue localizar bens e recursos financeiros em montante suficiente para cobrir os credores. 

Digno de nota é o fato de que a instituição é de propriedade da família do deputado Índio da Costa, que foi vice de Serra, do PSDB, na chapa da eleição presidencial de 2.010.

Uma pergunta desponta imediatamente: caso tivesse sido eleito, será que o América do Sul tinha quebrado? 

Segundo o Bacen, o América do Sul não deverá retornar ao controle da família do deputado após a intervenção. Seu destino será a venda a outra instituição, operação considerada tranquila, pois já haveria interessados.

Mesmo assim seus administradores e diretores não terão do que reclamar: em 2011 cada um deles embolsou algo em torno de 40 milhões a título de salários, participações e dividendos. Esse valor já havia subido para perto de 50 milhões de reais em 2012. Considerando ainda que o todo poderoso da instituição, sr. Luís Octávio Índio da Costa exercia ambas as funções, seus ganhos chegaram no ano passado a perto de 80 milhões de reais e se encaminhavam neste ano para os 100 milhões.

Pelo visto, é mesmo verdadeira aquela história que rola no mercado financeiro sobre os negócios mais rentáveis da economia, sendo:
O melhor negócio do mundo um banco bem administrado
O segundo melhor negócio do mundo um banco mal administrado
O terceiro melhor negócio do mundo um banco quebrado

No caso presente confirmamos ainda que a família controladora da instituição financeira de índio não tem nada...
  

domingo, 3 de junho de 2012

A volta do cipó de aroeira



Desde a auto imolação do tunisiano Mohamed Bouazizi em dezembro de 2010, uma avalanche de protestos e de reivindicações vem se alastrando pelo mundo árabe, derrubando governantes e obrigando à instalação de regimes democráticos (pelo menos em tese). Chegada a vez do Egito, assistimos um importante capítulo neste sábado.

O ditador Hosni Mubarak, que passou os últimos 36 anos comandando o Egito, foi condenado à prisão perpétua. Foi vice presidente do lendário Anwar al Sadat até outubro de 1981, quando, guindado  à presidência, lá se manteve até sua derrubada pela Primavera Árabe em fevereiro de 2.011.

Durante esse tempo governou de forma implacável com seus inimigos, jamais permitindo que a oposição pudesse se consolidar. País milenar, o Egito vem enfrentando seus aproximadamente 4.000 anos de história  comandado por faraós, reis, rainhas e ditadores. Jamais (até Mubarak) por qualquer um que tenha sido democraticamente eleito.

O Egito ultrapassou o século XX fortemente envolvido com questões internacionais, como a nacionalização do Canal de Suez ou as reiteradas escaramuças com Israel. O país, que mantinha acordos bilaterais e grande vinculação com a Rússia, mudou de lado sob o comando de Sadat, tendo sido, desde então, aliado americano naquela conturbada área.

O governo Mubarak, além de combater inimigos, fraudar eleições e impedir a liberdade de expressão, manteve o povo egípcio em situação de grande pobreza. Privilegiou a concentração de renda, produzindo milionários de um lado e mendigos de outro, sem que estes pudessem vislumbrar qualquer ato de política econômica que pudesse minorar seu sofrimento no médio ou no longo prazo.

Em todo o seu governo reiterou e manteve estreitos laços com os EUA, sendo seu aliado nas questões envolvendo Israel e todo o Oriente Médio. Foi obrigado, entretanto, a engolir a frieza de seu grande aliado quando caiu em desgraça naquele janeiro de 2011 quando foi forçado a renunciar e fugir do país. Os americanos o haviam abandonado. Afinal, ele era só um homem e os EUA só se interessam por aquilo que possa ser transformado no vil metal.

As agruras que impôs ao povo egípcio retornaram com força sobre ele, que não conseguiu abrigo seguro em qualquer lugar do mundo, nem mesmo naqueles países sempre considerados aliados. Seu julgamento e a prisão pelo resto da vida ainda foram considerados insuficientes por grande parte de seus adversários, que defendiam a pena de morte como forma justa de punição ao ditador.

É como disse Vandré: “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.”

sábado, 26 de maio de 2012

Atenção ao sábado

                                                                                                                                 


                                                              Clarice Lispector      


Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.
No sábado é que as formigas subiam pela pedra.
Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.
De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.
Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?
No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.
Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.
Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.
Domingo de manhã também é a rosa da semana.
Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Dialética nossa de cada dia




Shakil Afridi é um nome que certamente passaria despercebido da grande mídia e talvez pudesse viver o resto de seus dias em paz. Tudo isto se não fosse a tal da dialética que nos força de vez em quando às confrontações e ao jogo de opostos tão típicos de nossa civilização. Isto sem nos esquecermos de suas consequências, tudo inserido no princípio hegeliano sempre atual.

É que o ilustre cidadão, médico militante, promoveu uma falsa campanha de vacinação contra a hepatite para colher material genético dos habitantes de uma determinada casa situada na cidade de Peshawar. Lá residia nada menos que Osama Bin Laden, o que restou comprovado pela análise do DNA colhido.

A partir da atuação do espião improvisado as forças militares americanas puderam invadir o local e eliminar seu arqui inimigo, sem que tivessem dúvidas de que o mesmo lá seria encontrado.

Em razão disto foi ele condenado a nada menos que 33 anos de prisão por haver cometido traição contra seu país.

Ocorre que o próprio Paquistão já havia anteriormente afirmado que o terrorista não estava em seu país e que se encontrava também dentre aquelas nações que tentavam sua captura.

Após a invasão norte americana o governo paquistanês não esboçou qualquer reação internacional (poderia ter protestado junto à ONU e até mesmo buscado reparação dos EUA), fazendo o mundo crer que autorizara a ação militar em seu solo.

Além de tudo isto, o planeta inteiro sabe que o Paquistão é beneficiário de ajuda americana da ordem de bilhões de dólares, não obstante mantenham eles relações bilaterais das mais tranquilas. 

Tem o país o trunfo de sua posição geopolítica, sendo caminho natural para transporte de tropas da Otan com destino ao Afeganistão, além de situar-se próximo ao Golfo Pérsico, ao Iran e à Índia, seu histórico inimigo e que sempre contou com a proteção dos EUA.

A confusão tem ainda um ingrediente literalmente explosivo: o mundo inteiro sabe que o Paquistão, apesar de não fazer parte do Clube Atômico, já possui sua bomba. Assim como a Índia - seu vizinho e rival - não assinou o Tratado de Não Proliferação e mantém-se como potencial ameaça à paz mundial, acompanhada pela Coréia do Norte, do Irã e de outros.

A situação é de pura dialética.

O imbróglio causado pela condenação do médico terá ainda como consequências os riscos que sua vida passa a correr a partir da divulgação, o acirramento da tensão entre EUA e Paquistão e o aumento da instabilidade na região. Marx, caso aqui pudesse estar, talvez esboçasse um sorriso irônico...

terça-feira, 22 de maio de 2012

A face (quase sempre) oculta da verdade


A Comissão da Verdade mal se instalou e já teve que abordar um emblemático pedido de reparação  - o do Cabo Anselmo. Agente duplo, o militar desincumbia-se da missão de delatar seus companheiros, uma vez que estava a soldo da ditadura, mas fazendo-se de revolucionário. 

Assim como os militares que atuaram no Araguaia e que também pleiteiam serem reparados. Neste caso por terem agido "sob irresistível coação seus superiores" ao cometerem as atrocidades que pouco a pouco afloram do passado soterrado pelos coturnos.

Bom lembrarmos que todos aqueles que pegaram em armas em defesa da democracia, enfrentando uma luta desigual e injusta, também estavam sob "irresistível coação", só que se sua consciência. O que fizeram, certo ou errado, foi movido por princípios e não por cega obediência.

Todos duvidamos que qualquer um daqueles militares que torturaram, esquartejaram e ocultaram corpos também seria tão obediente a uma ordem que os impelisse ao suicídio.

Era evidente que a Comissão negaria as pretensões expressas pelo Cabo Anselmo, como deverá negar também aquelas propostas pelos militares do Araguaia. O enfrentamento à coação moral deve ser buscado na alma, de onde saem  as condutas morais que não podem ser negociadas em troca de soldos. A isto chamamos dignidade, que é algo que um homem jamais pode abrir mão em sua vida, sob pena de não mais merecer o respeito e a solidariedade de seu grupo social.

Por outro lado, os generais também não se calaram em face da Comissão. Recentemente Leônidas Pires, hoje na reserva, critica-a sob os argumentos de que seria extemporânea e representante do passado que deveria ser esquecido. E ainda que, se fizeram o que fizeram, foi em defesa da democracia que hoje permite a discussão recém instalada. E, como em todas as defesas que se lançam em prol dos atos militares, tudo atribui ao cumprimento de uma tarefa que lhes fora designada.

Em bom momento aparece o ex delegado do Dops, Cláudio Guerra, com seu livro "Memórias de uma guerra suja", que bem descreve os meios e as formas que a ditadura utilizou para "desincumbir-se de sua missão".

De tantos exemplos relatados pelo livro, localizamo-nos apenas em solo mineiro. Ficamos sabendo pelo autor que a Lagoa da Pampulha, atrativo tão caro à nossa mineiridade, serviu de cemitério para que as forças de segurança lá jogassem   prisioneiros, após assassinados, esquartejados e atados a pesos. Também tomamos conhecimento de que o subsolo da Delegacia de Furtos e Roubos era outra área destinada aos enterros clandestinos tão a gosto dos órgãos de repressão política.

Será que tarefas como as presentes nos relatos de Cláudio Guerra e tantos outros que já nos chegaram aos ouvidos encontram-se inscritos na "missão" que a sociedade teria delegado aos golpistas?

Não obstante já transcorridos mais de quarenta anos ainda há muitas perguntas sem resposta e muitas interrogações perdidas em nossa história recente. Esse passado precisa ser revirado, tal como a terra dos cemitérios clandestinos, pois todos sabemos que muitas das respostas lá estão e só aflorarão à superfície se todo aquele barro escuro vier à tona.

sábado, 19 de maio de 2012

Festival Interplanetário de Feiura

Grandes finalistas

10ºlugar-G.Bush                          9ºlugar-D.Versace                                            8ºlugar-tia Hillary


   7ºlugar-Obama                                             6ºlugar-A.Merckel                           5ºlugar-Repr.de Marte 

   4ºlugar-Repr. de Júpiter                                                                                  3ºlugar-Origem ignorada
                                                                                     
2ºlugar-Repr.de Cruz Credo


 Primeiríssimo lugar




sexta-feira, 18 de maio de 2012

Há ossos debaixo do tapete...


A recém e corajosamente instalada Comissão da Verdade tem uma nobre tarefa: a de retirar os ossos que jazem sobre o tapete da democracia brasileira. Desde os terríveis anos da ditadura tentamos acreditar que amanhã vai ser outro dia, mas nada poderá mudar realmente se não passarmos a limpo alguns fatos que nos espreitam escondidos.

É muito simples dizermos que a anistia foi concedida em duas mãos e que os pecados cometidos de um lado apenas implicaram nos erros do outro. Não, não foi assim.    

De um lado havia uma turma de idealistas desestruturados, mal armados e inconsequentes consigo mesmos. Tencionavam impedir a saída do país dos trilhos da constitucionalidade, mas avançavam temerariamente no confronto com um inimigo muito superior.

Do outro o próprio Estado tomado de assalto por um golpe teoricamente amparado no medo do bicho papão, mas que em verdade objetivava reconduzir ao poder a mesma oligarquia que sempre dominou o Brasil. Pura hipocrisia tentando esconder um painel em que a minoria de sempre mais uma vez julgou-se no direito de comandar a maioria de sempre.

É certo que os revolucionários mataram, agrediram, assaltaram, feriram, afrontaram e agitaram. Mas os golpistas fizeram muito mais, antes e depois da reação. Eles espezinharam a democracia, vomitaram o AI-5, torturaram barbaramente, assassinaram em seu porões, consumiram corpos, enfim, não foram páreo para seus opositores...

Basta conhecermos alguns detalhes macabros dessa história transmitidos por vários órgãos de imprensa. 

Muitos dos inimigos do regime foram decapitados, esquartejados e enterrados em covas junto ao lixo de bases militares. Alguns, como Mário Alves, tiveram o corpo esfolado por escova de arame, além de serem agredidos com cacetetes farpados. Ainda houve casos como o de Stuart Angel, que após ter sido barbaramente torturado foi amarrado com a boca no cano de descarga de um veículo militar e arrastado dentro de uma base militar. Isto é só uma amostra de tantas atrocidades cometidas pela ditadura brasileira.

Não houve igualdade, os crimes oficiais ocorreram em maior número e com requintes de crueldade que produziram 144 brasileiros desaparecidos, dos quais não se tem notícia do paradeiro de seus corpos. 

Daí a Comissão recém instalada chamar-se "da Verdade", pois é ela que precisa ser restabelecida. Se os fatos daí derivados vão ser objeto de apreciação judicial ou não, é questão que cabe ao Poder Judiciário, que é poder e só existe hoje graças à redemocratização do pais.

E ainda, se os clubes militares ou quaisquer outras instituições desejarem criar suas próprias comissões, que o façam. Se há ossos também do outro lado do tapete que sejam eles mostrados à sociedade. 

A verdade precisa vir à tona, o tapete precisa ser sacudido e o travo advindo das mágoas do passado precisa ser curado, para que amanhã possa mesmo ser outro dia. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

OMS considera a obesidade uma epidemia mundial


Segundo a Organização Mundial da Saúde-OMS, o mundo ficou mais gordo. A obesidade já é considerada (e tratada) como doença crônica.


Nós os gordinhos somos hoje mais de 1 bilhão no mundo, sendo que 300 milhões são considerados obesos, fase mais avançada do problema. Por aqui, o IBGE apurou que somos mais de 38 milhões de brasileiros são obesos. 


Tá feia a coisa... Vejamos:




   


































                                 

































Éééééé... pelo jeito estamos precisando mesmo 
de um regime... 

domingo, 13 de maio de 2012

Ossos do baú de Nava


"A vida é um romance sem enredo..."

Em 1984, também um 13 de maio caído no domingo, desistia de continuar sua vida um dos grandes escritores brasileiros. Pedro Nava é considerado nosso maior memorialista, apesar do título não lhe fazer jus, uma vez que foi muito mais que isto. 

Suas linhas, às vezes um pouco soturnas, provenientes de um médico assumidamente depressivo, às vezes assustam. Mas são de grande riqueza literária e de notável beleza.

“O que há de terrível na vida mundana é a perda de tempo – a troca inútil de visita, jantares e almoços de cortesia, as obrigações de missas de sétimo dia, de casamentos, ação de graças, bodas de ouro e prata. Velórios. Tudo isto é motivo de encontros tantas vezes desagradáveis, com outros que não os verdadeiros amigos, sobretudo nas casas cujos anfitriões fazem inevitavelmente ímpares convidando para refeição e pondo juntos, à mesa, pessoas que reciprocamente teriam vontade  de se verem - uma no enterro da outra. Isto é o que fez Proust dizer com impaciência e até ferindo os verdadeiros amigos que “ ...l ´artiste qui renonce à une heure de travail pour une heure de causerie avec un ami , sait qu´il sacrifie une realité pour quelque chose qui n´existe pas...” (Círio Perfeito, 1983)

Nava, também admirado como médico, nasceu em Juiz de Fora, terra presente em suas memórias e doces lembranças. Baú de Ossos não é um repositório de cenas lúgubres, mas de fatos e lugares que se constituíram em última análise em sua própria vida e de sua mineiridade assumida ("Sou mineiro dos que dizem mineiro Graças a Deus!"):

"...a Rua Direita é a reta onde cabem todas as ruas de Juiz de Fora. Entre o Largo do Riachuelo e o Alto dos Passos, nela podemos marcar o local psicológico da Rua do Sapo, da Rua do Comércio, da Rua do Progresso, da Rua do Botanágua..."

Para conhecer mais sobre o ilustre conterrâneo, acesse www.pedronava.com.br

Importante também percebermos a ironia e um leve deboche presentes com fartura em "O Defunto", de 1967:

O defunto

Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.

Quero a morte com mau-gosto!

Dêem-me coroas de pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enorme salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.

- Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.

- Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.
- Meus amigos, olhem as partes...
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes...

Eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.

- Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.

Eu quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron...
E os mais altos colarinhos.

Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo...
E assim solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.
- Meus amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!

Que se vai como se vão
Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.