terça-feira, 10 de outubro de 2017

FIRST THEY KILLED MY FATHER


Mais uma produção de qualidade da Netflix, desta vez sob a direção de Angelina Jolie. É o quinto longa metragem que assina (“A place in time” em 2007, “In the land of blood and honey”, este traduzido no Brasil como “Na terra de amor e ódio” em 2011, “Invencível”, em 2014, “À beira mar”, em que contracena com Brad Pitt).

Jolie tem um grande histórico cinematográfico. É filha de John Voight (Oscar por “Amargo Regresso” e participação no clássico “Midnight Cowboy”, além de “Lara Croft”, “Pearl Harbor”, “O Campeão”, “Missão Impossível” e outros). Participou de dezenas de filmes, tendo alguns deles conquistado grande sucesso de público (“Salt”, “Malévola”, ”O turista”, “A troca”, “Sr. e sra. Smith”, “Lara Croft” e outros), tornando-se uma das campeãs de faturamento em Hollywood.

Desta vez traz um drama histórico com ares de documentário retratando a autobiografia contada por Loung Ung em seu livro homônimo.

O contexto histórico é o período da cruel ditadura de Pol Pot, líder do Khmer Vermelho (anghkar), que dominou o Camboja entre 1975 e 1979, quando foram assassinadas mais de dois milhões de pessoas, ou cerca de 25% da população do país.

O Khmer tentou implantar no país uma forma grotesca e absurda de reforma agrária em um figurino de implantação fadada ao fracasso.  Mas foi tentada pelo esvaziamento das cidades e brutal extermínio de todos os que tinham qualquer relação com o antigo regime. As comunidades de trabalho agrícola forçado se disseminaram pelo país, bem como o sofrimento dos cambojanos, particularmente aqueles que ostentavam algum traço ocidental (professores, funcionários públicos, profissionais liberais, ou simplesmente quem falasse línguas estrangeiras ou cultivasse ciências ou letras).

A família foi considerada proscrita, sendo substituída pelo Estado e as crianças incentivadas a entregar pais e familiares para prisão ou execução.

Não obstante se denominasse comunista, era contrário à doutrina marxista, tendo combinado suas próprias teses filosóficas com alguns princípios maoístas, espelhando-se também no forçado êxodo rural da Revolução Cultural chinesa do final dos anos 60.

Pol Pot, não obstante mentor intelectual e principal responsável pelo genocídio cambojano, jamais chegou a ser julgado. Morreu antes que o Tribunal Penal Internacional pudesse condená-lo por crimes contra a humanidade.

O filme, que foi escolhido pelo Camboja para representa-lo no Oscar, relata esse período de brutalidade, aos olhos de uma criança cuja família foi compulsoriamente levada para trabalhos no campo.


Com ares de documentário, a película não objetiva ser registro  histórico, mas fundamentar-se no sentimento da protagonista, uma criança de 5 anos envolvida nos horrores do absurdo regime que se instalara no Camboja. É emocional, traduzindo os fatos pelos olhos da menina autora.

A aparente lentidão da narrativa e a apresentação homeopática de  cenas sangrentas e violentas, típicas de um filme como este, o aproximam da visão infantil que permeia a narrativa. Emolduram também o cansaço, a desilusão e a falta de perspectivas dos cambojanos escravizados pelo regime. A técnica, entretanto, leva ao cansaço o expectador em alguns momentos, fazendo-o ressentir-se da ausência de um pouco mais de vibração.

É inevitável a comparação com outro filme, o clássico “Gritos do Silêncio”, de 1984. Tratando da mesma temática – a ditadura do Khmer Vermelho -, tem enfoque diverso. Nele a narrativa parte de personagem adulto e envolvido politicamente na trama. É também uma grande produção. Desnecessário estabelecermos critérios comparativos entre ambos. Ao contrário, são complementares a meu ver. Importante ressaltarmos, entretanto, que apresenta uma direção mais aguda, com cenas mais pungentes, duras e às vezes sangrentas. Como era de se esperar, tem um clímax, característica comum em dramas cinematográficos.


“First” é um filme que deve ser assistido por suas inúmeras qualidades, ainda que não possa ser considerado uma obra definitiva sobre o tema. Alguns críticos apostam nele com o vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2018. Tem grandes chances. Veja o trailer;

https://www.youtube.com/watch?v=uS3Vp_quGCw 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

MÃE! Uma exclamação e muitas interrogações...


“Mãe!” foi um dos filmes mais esperados do ano e certamente o mais polêmico. O elenco brilhante conta com Jennifer Lawrence (Oscar de melhor atriz em 2013 por “O lado bom da vida”, MTV Movie Award, por “Jogos Vorazes”, além de diversos outros), Javier Bardem (Oscar de coadjuvante com brilhantismo em “Onde os fracos não têm vez”, cinco vezes premiado com o Goya e outros), Michelle Pfeiffer (linda e veterana ganhadora do Globo de Ouro por sua atuação em “The Fabulous Baker Boys”) e Ed Harris (Globo de Ouro como melhor coadjuvante em “Truman, o show da vida”, repetindo o feito em “Virada no jogo”).

Tem também direção e roteiro de Darren Aronofsky (Leão de Ouro por “O lutador”, Gotham Awards por “Pi” e outros). Conhecido por seus filmes tidos como controversos e perturbadores, como “Cisne negro”, “Requiem for a dream” e o apedrejado “Noé”.

A crítica especializada tem classificado a obra como thriller psicológico. Os expectadores e a mídia em geral têm atribuído ao roteiro algumas intenções grandiosas. Ora é a história de Deus, incluindo a criação, o Velho e o Novo Testamento, ora é uma denúncia relativa aos maus tratos que dedicamos à mãe natureza. Em um dos cartazes Jennifer encarna imagem similar àquelas utilizadas pela Igreja Católica para representar a mãe de Jesus. Em outro (que gerou tanta polêmica) é alguém parcialmente seviciada, mas que preservou intacto um de seus hemisférios faciais.

Os personagens não têm nome, mas possuem imensa força dramática. Presentes no filme o inusitado, a provocação, o incômodo, a interrogação, a indignação, a penumbra, o cinza, mas não a beleza. O filme não é belo, em certos momentos é feio e tenebroso. Também não é diversão. Em muitas situações é uma pedra no sapato, um zumbido de pernilongo atormentando o expectador. As cenas não estão dispostas em sequência lógica, onde a ação sempre corresponde a uma reação esperada. O filme é inesperado. Caótico às vezes, surrealista sempre. Surpreendente.

Do surrealismo do grande Miró (um de meus pintores prediletos), saiu o “Carnaval do Arlequim”, que é disperso e estonteamente tal qual ”Mãe!”. Para onde olhar na tela em ambas as obras?

De René Magritte o provocativo “Os Amantes”, tão simples e tão intenso. Tão inesperado, mas tão poderoso!

De Aronofsky percebemos que “Mãe!” é um grito ecoando no subjetivismo do autor, tão surrealista como poderia ser. Já vimos antes coisa semelhante do mesmo diretor, em “Cisne Negro”, com Natalie Portman. É intenso, provocativo e cruel, porém mais metódico, mas também um grande filme.

Alguns pontos são bem instigantes: os protagonistas não se referem a parentes ou a experiências anteriores (somente um obscuro incêndio que teria destruído a casa). Eles vivem uma relação de amor, mas encarnam seus antagonismos, crescentes a cada momento do filme. Há uma visível diferença de idade, a mulher vive de sua criatividade, ao construir, redecorar e remontar a residência, o marido (famoso escritor) debate-se com um impenetrável vazio de criatividade. Quando escreve seu poema, e dá início aos momentos mais dramáticos do filme, o texto somente é lido pela Jennifer. Mais antagonismos presentes nela, que tudo faz para reerguer o lar onde viverá seu amor com o marido. Ele é portador de um imenso ego, muito distante do desejo romântico da esposa (que, apesar de linda, nem sexualmente parece lhe interessar). Ela é generosa, ele egoísta. Ela tenta preservar seu amor, ele em tudo é condescendente para viver sua obra.

O Diretor de Fotografia Mathew Libatique (“Homem de Ferro” 1 e 2, “Cowboys e Aliens”, “Cisne Negro” e outros) utiliza-se durante quase todas as tomadas de um pronunciado close no rosto de Jennifer, esquadrinhando suas expressões, angústias e sensações, transformando a atriz em uma segunda tela onde se pode assistir a mesma filmagem. É, entretanto, um recurso incômodo, às vezes irritante, bem ao estilo da obra. Nos momentos em que não foca seu rosto à exaustão, posta-se sobre seu ombro, conduzindo a plateia pelos passos da protagonista. Vamos a reboque de suas sensações.

Dois mistérios no filme: o pó amarelo que inicialmente a atriz ingere misturado à água (este mistério parece destinado a não ser solucionado) e a joia que o escritor mantem quase em altar, a primeira se quebrando no decurso do trama e a segunda obtida como prenúncio de uma nova história. Parece ser um diamante, mas o que será na realidade?

Interessante também o casal Ed Harris – feio, desajeitado e quase tísico –, aparentemente dominado pela mulher, a sempre linda Michelle Pfeiffer, que encontra espaço em ambiente tão soturno para expressar sua propalada sensualidade. Sua personagem é produto da obra: inconstante, contraditória, afável e grosseira, meiga e agressiva. Difícil a um diretor encontrar um par tão heterodoxo como este. Coisa típica do filme, onde os extremos se debatem durante todo o tempo e as centenas de imagens, gritos, sensações e figurantes trazem uma perturbação constante que dá o clima aparentemente projetado pelo roteirista e diretor.

E os filhos do casal Harris-Pfeiffer?  Caim e Abel? Pode ser, mas isto não é tão evidente, uma vez que suas aparições são sucintas e suas histórias, ainda que semelhantes à dupla bíblica, não contêm maiores evidências disto. Podem ser a figuração da violência pessoal homem com homem, tão paralela àquela por nós praticada contra a natureza.

Há também a vertente de que Jennifer seria a personificação da mãe natureza. Hipótese bem plausível a meu ver, não somente por diversas situações pontilhadas ao longo do filme, como também pelas cenas finais. Estas, a meu ver, contêm bastante indicações para essa que poderia ser a real intenção do autor.


E aí? Como interpretamos a obra?

E quem disse que é preciso interpretá-la? Quem disse que há respostas únicas para cada pergunta?

Assim somos nós, homens contraditórios, que acariciamos nossos cãezinhos e sacrificamos nossos bois. Que juramos amor eterno, mas traímos, que tanto amamos a vida, mas a trocamos pelo vil metal. Somos a contradição porque foi isto que fizemos do livre arbítrio que recebemos de presente. Assim como os invasores de todos os matizes (às vezes irreconhecíveis na tela) destruímos tudo o que tocamos. Mas guardamos um singelo vasinho de flor no parapeito da janela...

Pouco me importa se “Mãe!” retrata uma ou outra vertente emprestada pelas diversas opiniões, nem que o ponto de exclamação seja a entrada do pórtico de onde teremos acesso à obra, nem ainda se contém mais mensagens do que deveria em seu tempo de projeção. O que me importa é a sensação obtida com a história, o incômodo produzido pelas imagens ou a sensação confusa e às vezes sufocante que permeia toda a exibição.


Importa-me o que senti e aquilo que invadiu meus pensamentos durante e após a exibição. É um grande filme que merece nossa atenção. Como disse Aronofsky, se alguém quer diversão, assista “Pica-Pau”, mas “... se quiser um passeio de montanha-russa...” assista “Mãe!”

https://www.youtube.com/watch?v=ugn1gqGl7rs

domingo, 10 de setembro de 2017

BINGO, O PALHAÇO SEM ALMA




É um excelente filme. Mais uma produção que nos orgulha e nos faz sentir que, se não temos orçamento para superproduções, temos talento e criatividade para obras de alta qualidade.

O diretor Daniel Rezende, estreante na direção, é detentor de vários prêmios de montagem, tendo assinado filmes como “Diários de Motocicleta”, “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” (1 e 2), “Cidade dos Homens”,  “O Ano em que meus Pais Saíram de Férias”,  “Robocop” (do Padilha) dentre outros. Consegue manter o crescente – e firme – clima dramático que o filme exige. As imagens, coloridas e vibrantes do início, vão dando espaço para momentos sombrios e calculadamente carregados de emoção que marcam o desenrolar da vida de Arlindo Barreto, um dos Bozos, que inspirou a película.

É um drama crescente, permeando toda a exibição, bem como o apogeu e decadência do personagem principal. Da glória ao fundo do poço, Augusto Mendes (pseudônimo de Arlindo utilizado no filme) não conseguiu se desvencilhar do paradoxo que lhe foi gerado pela imensa notoriedade do personagem e absoluto anonimato do artista. Falta de alma, talvez, ou, no mínImo, de suporte psicológico para enfrentar o choque de emoções.

Vladimir Brichta, já conhecido principalmente pelos papéis de humor, cumpre o difícil encargo de apresentar um personagem multifacetado, que comporta nuances de palhaço e de pai, inebriado pelas luzes da ribalta, mas vivendo um conflito de ser ou não ser. Ao mesmo tempo em que é o “Rei das Manhãs”, é barrado em sua própria festa de homenagem. Brichta se desincumbe corretamente do papel, navegando entre o drama e o humor de forma competente. Muitos estranharam, entretanto, não ter sido entregue o papel a Domingos Montagner – recentemente falecido – e que participa rapidamente do trama, mas que é palhaço de circo por formação.  

Leandra Leal também atua com seriedade e competência, emprestando à sua personagem os contornos necessários. Não é um papel complexo, mas tem grande importância no fio condutor da trama. Apesar de seus apenas 35 anos, foi melhor atriz pelo evento Grande Prêmio do Cinema Brasileiro por sua participação no longa “O Lobo Atrás da Porta”. Recebeu também o prémio de melhor direção por “Divinas Divas” no festival de cinema South by Southwest, nos Estados Unidos.

Outro ponto alto do filme é a fotografia do premiado Lula Carvalho, que marcou suas participações em  “Cinema, Aspirinas e Urubus”, “Tropa de Elite”, “Feliz Natal”, “Lavoura Arcaica”, “Budapeste”, “Cidade de Deus” e “Robocop”, além de outros filmes.  Recebeu elogios por alguns planos que incluiu na montagem, como a estréia de Bozo nos palcos e seu posterior abandono (quando, sugestivamente, as portas se fecham e as luzes se apagam, uma a uma).

Bom relembrarmos também de Pedro Bial, que em nenhuma dos poucos momentos de aparição lembra um ator – não é –, mas é a correta representação do ícone Rede Globo, cujo nome foi ocultado, mas a evidência salta aos olhos.

Alguns especialistas dizem que o palhaço não interpreta um personagem. “Ele é quem é”, permitindo que aflore de seu interior o ridículo que lá existe, ofertando-o ao público sob a moldura de suas pantomimas. Tudo isto atrás da menor máscara do mundo, que é seu nariz vermelho, sempre apontado para a plateia, indicando o caminho de sua comunicação com o público. Dizem até que um palhaço não direciona seu olhar, mas sempre movimenta sua cabeça no rumo do objeto de sua atenção naquele momento.

Bingo (ou Bozo) não, ele foi o resultado de um projeto, marca comercial exportada para o mundo a partir dos EUA. Não nasceu das próprias emoções como Carequinha, Arrelia ou Piolin, brotados respectivamente de George Savalla Gomes, Waldemar Seyssell e Abelardo Pinto. Ou mesmo como Domingos Montagner e Companhia La Minima, cujo desempenho podemos admirar no endereço http://www.laminima.com.br/site/.

Bozo foi construído como um produto comercial com direção definida e suporte mercadológico específico. Durante os mais de dez anos em que foi exibido no Brasil, recebeu interpretação de quatorze atores diferentes, todos sob a mesma máscara e atrás do mesmo nariz.

Por isto não tem alma de palhaço. Por isto não é palhaço.

Assista, com ou sem pipoca. É uma produção digna de nosso melhor cinema brasileiro.



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O QUASE TERROR DE "IT - A COISA"


Não li o livro que deu origem ao filme, da lavra de Stephen King, um dos maiores autores da literatura de terror e de suspense do mundo.

Conheço outras obras do autor transformadas em filmes, como o clássico “O Iluminado”, referência no cinema suspense, que contou com a marcante atuação de Jack Nicholson e direção do magistral Stanley Kubrick. Há também o aterrorizante “Carrie, a Estranha”, que tem no elenco a grande Julliane Moore e direção de Kimberly Peirce. Isto sem nos esquecermos do emblemático “O Nevoeiro”, que contou também com série televisiva atualmente em cartaz na Netflix, com direção de Frank Darabont. Também o escatológico e enigmático “O Apanhador de Sonhos”, com Morgan Freeman e direção de Lawrence Kasdan. Difícil nos esquecermos de “À Espera de um Milagre”, grande obra cinematográfica (também direção de Darabont), que contou com Tom Hanks e a notável atuação de Michael Clarke Duncan (justamente indicado ao Oscar pelo papel).

Há muitos outros filmes inspirados nas obras de suspense de King muitos deles sucessos de público. No mínimo, filmes comentados e lembrados por cenas insólitas, pelo pavor provocado ou por outros requisitos especiais.

“It – A Coisa”, dirigido por Andres Muschietti, não conta com elenco de renome, mas contém personagens estranhos e alguns quase sem ligação entre si.

Há indicações de pedofilia por parte do pai de Beverly, há também a doentia matrona e um tanto felliniana mãe do garoto asmático, bem como a gangue praticante de violento bullying contra as crianças e até mesmo um policial que transformou o filho em um desequilibrado e mau adolescente. Tudo isto sem conseguir transformar a película em um thriller psicológico. E há também o menininho que abre o filme perseguindo um barquinho de papel, única cena digna de um filme de suspense que se preze.

O palhaço Pennywise, representado pelo sueco e quase desconhecido Bill Skarsgård tem desempenho difícil de ser avaliado em função da abrangente maquiagem e também por ter atuado muito em cenas de escuridão e com foco parcial de seu corpo. O diretor aparentemente desejou marcar o personagem com closes longos e iluminação direcionada à face. Talvez queira inseri-lo na galeria onde estão Freddy Krueger, Chucky, Michael Myers e outros ícones mascarados e maquiados.

É um filme sobre o medo, que mistura cenas de pueril ambientação adolescente e de romantismo piegas com momentos de muito sangue e violência. A direção, entretanto, não permite que as mais horríveis permaneçam à vista do telespectador, derramando-lhe o balde dágua da mudança de cenário. É inconstante, não merecendo ser classificado como filme de horror, mas também não é infantil ou adolescente. É miscelânea de cenas e orientações, onde o clímax muitas vezes é subitamente abortado em detrimento do susto e do medo que poderiam causar à platéia.

O caráter light também está presente em alguns momentos de características dramáticas, mas que chegam a causar risos, o que contraria a essência de um filme de terror.

Bom relembrarmos que a obra literária de Stephen King, em suas mais de mil páginas, enfoca o tema em dois momentos históricos: na infância dos protagonistas e trinta anos depois, com o retorno do palhaço assassino.

O filme, entretanto, só retrata a primeira parte, indicando que será filmada nova sequência em momento futuro.

Achei fraco, destacando, entretanto a cena inicial (do barquinho), como o melhor momento de um verdadeiro suspense. Em resumo, se não houver outra opção no cinema, assista. Não se esqueça da pipoca!

                   https://www.youtube.com/watch?v=dD264ZjfKlk




sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O ESTUPRO DE DUZENTOS MIL RÉIS



Na última quarta, 30.08, Diego Ferreira de Novais, inicialmente indiciado por estupro, foi libertado após o juiz considerar ausência de constrangimento, violência ou grave ameaça.
Antes de apedrejarmos o Meritíssimo, devemos considerar que o mesmo pautou-se estritamente pela letra da lei, considerando que nem mesmo houve crime, mas mera contravenção. A pena aplicada? Apenas multa. De quanto? Segundo a lei, de 200 mil réis e dois contos de réis. Em valores atuais, qualquer valor que leve em conta a profissão do indiciado (ajudante de serviços gerais).
A título de comparação, quais os demais delitos similares ao praticado pelo contraventor? São, dentre outros: provocação de tumulto leve, perturbação de sossego alheio, vadiagem e rinha de galo.  
E os antecedentes do contraventor? Veja no link:
São nada menos que 16 ocorrências similares (para considerarmos apenas aquelas em que ele foi detido pela polícia).
E quanto às considerações do juiz?
Ele se ateve à letra da lei, razão apontada por seus pares para reclamar das críticas que têm sido dirigidas a ele.
Esquecem-se os poderosos julgadores que para exercer tão nobre função não é necessário simplesmente abrir o Código Penal, identificar o delito, pesquisar a pena e, aberto o Código de Processo Penal verificar os procedimentos derivados.
Para fazer isto bastaria saber ler e escrever. Qualquer um razoavelmente alfabetizado poderia sentar-se naquela cadeira.
Não, para ser juiz é preciso algo mais que os cinco anos de Direito, os dois ou três de pós graduação, outros tantos de doutorado e, além disto, submeter-se a um concurso difícil e altamente concorrido.
É necessário mais que conhecimento. É preciso de discernimento, coerência social, entendimento das variáveis muitas vezes ocultas e psicológicas que acompanham cada caso. Para verificar a existência de constrangimento, violência e ameaça não basta a descrição dos lugares comuns. É preciso sensibilidade acima de tudo.
Constrangimento, em nossos melhores glossários significa também provocar acanhamento ou embaraço.
Violência é o homicídio, a lesão corporal, mas também é o próprio constrangimento no dizer de nossos glossários mais respeitados.
Ameaça, dizem nossos léxicos, é também “manifestação que leva a acreditar na possibilidade de ocorrer alguma coisa notadamente ruim”. Não será o mesmo que constrangimento?
E qual a intensidade desse constrangimento?
É preciso perquirirmos qual o alvo dele. Não é o patrimônio material, o social ou mesmo o profissional. É a intimidade.
E o que é intimidade? É o patrimônio estritamente particular, indevassável sem autorização, aquilo que se mantém resguardado da invasão alheia ou não permitida.
Pela décima sexta vez o contraventor constrangeu a intimidade de alguém, devassou-a somente para atender a seus instintos bestiais. E novamente o judiciário deixou-o livre para praticar, quem sabe, o décimo sétimo.
É preciso mudar muita coisa neste país. No que tange ao Judiciário, trazê-lo ao mesmo patamar daqueles que o buscam para proteger-se das vicissitudes que sofrem no dia a dia. Tirá-lo do Olimpo.
Decisões como essa ofendem a justiça social, mantêm ao desamparo as mulheres que são obrigadas a suportar caladas atos que envergonham a todos, inclusive nós, homens. É precisamente para casos do gênero que servem as cadeias, não somente para aqueles que furtam sacolas de biscoitos em supermercados.
Juízes não são funcionários públicos comuns. São titulares de um Poder e é nessa condição que devem se portar. O que se pede a eles é que pratiquem justiça, que é uma das quatro virtudes cardeais e mãe da dignidade humana.



domingo, 27 de agosto de 2017

O NOVO DISCO DE CHICO BUARQUE E A POBREZA CULTURAL




O macarthismo, de triste lembrança, reacende seus pavios de vez em quando. O mote pode ser político, ideológico, racial, enfim, qualquer das vertentes que o radicalismo e a intolerância podem utilizar.

Vivemos o mundo dos rótulos e das análises rasteiras, onde padrões subjetivamente estabelecidos são lançados para standartizar pessoas e comportamentos. É a apoteose da burrice e da superficialidade.

O mais recente exemplo consiste na polêmica em torno do novo disco de Chico Buarque, particularmente com relação à música “Tua Cantiga”.

Mentes menos acuradas indignaram-se com o verso:

Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”
  
Pronto. Isto é suficiente para taxar o compositor cuja carreira já conta com meio século, de machista. É óbvio que os autores de tais críticas desconhecem a carreira do maior letrista da música popular brasileira. Também é óbvio que eles sequer sabem o significado de ficção literária. Nem ao menos conseguem discernir entre autor e história (ou estória, como gostávamos antes). É esse tipo de pessoa que ataca atores na rua por raiva de seus personagens na novela da moda.

Fragilidade intelectual. Desapego à cultura.

Não, indignados manifestantes: não se trata de autobiografia de Chico. É apenas um relato ficcional como tantos outros. Brilhante, porém, como o resto da obra do autor.

Não, desavisados, Chico não é uma lésbica quando canta “O meu destino é caminhar assim, desesperada e nua. Sabendo que no fim da noite serei tua”. Nem mesmo a sua prostituta namorada ao proferir “O meu destino é caminhar assim, desesperada e nua. Sabendo que no fim da noite serei tua” .

Também não é uma escrava submissa quando confessa "E também pra me perpetuar em tua escrava que você pega, esfrega, nega, mas não lava”.

Se em “Tua Cantiga” o personagem é quase um capacho por amor, o outro (ou outra) revela a consciência fria da traição em “Te perdoo porque choras quando eu choro de rir, te perdoo por te trair”.

Sinto decepcionar, mas o autor também não possui um cavalo, menos ainda um que fale inglês ou carrega consigo “chave, caderneta, terço e patuá” que recebera de presente.

A obra de um dos mais importantes intelectuais brasileiros estende-se também em “O Irmão Alemão”, “Leite Derramado”, “Budapeste” e tantos outros. Nenhum é autobiográfico, ainda que possa conter traços de sua vida. São obras que precisam ser entendidas como produção livre do autor, sem preconceitos, limitações ou inúteis rótulos.  


Não, indignados manifestantes, tudo isto é ficção literária, os personagens são de livre criação, passíveis de cair no gosto de cada um ou não. Mas a confusão entre autor e criação é mais que inadmissível, é uma confissão de pobreza cultural.


https://www.youtube.com/watch?v=agH2bBnNUCs

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

THE DEATH OF STALIN


Divulgado o trailer de um filme que, possivelmente, vai gerar polêmica: The Death of Stalin. Trata-se de uma sátira sobre a morte do líver soviético e a consequente briga para controle da URSS.

No elenco, dentre outros, Steve Buscemi, já conhecido por suas participações em Fargo (irmãos Cohen), Armageddon (Michael Bay), O Regresso (Alejandro Iñárritu), Os Oito Odiados, além do grande Pulp Fiction (ambos de Quentin Tarantino).

Outro ator também de destaque na trama é Michael Palin, mais conhecido por participar do impagável grupo inglês Monty Python, com seu humor iconoclasta e non sense.

A direção fica por conta de Armando Iannucci ( diretor da comédia In the Loop e dos sitcoms The Thick of It e Veep).

É possível que a obra sofra exploração política no Brasil, tendo em vista a polarização ideológica que vivemos, que às vezes beira a irracionalidade. Mas, independente disto, é salutar que personalidades históricas e eventos que influíram nos rumos da humanidade  sofram apreciação satírica inteligente. Assim foi com Hitler, Kim Jong-un, George Bush, Donald Trump e outros. 

Especialistas o consideram uma “comédia ácida”, o que já nos adianta o que virá. É sugestivo o cartaz onde se retrata um cabo de guerra  com os bigodes do líder comunista.

O filme será apresentado no Festival de Toronto em setembro e tem estreia prevista para outubro em Londres. A partir daí será distribuído para o resto do mundo, devendo aportar no Brasil no início de 2018.

É uma grata novidade que chamou-me a atenção pelo ineditismo de uma produção que foge do cinema excessivamente tecnológico (e muitas vezes vazio de conteúdo) que tem inundado o mundo.

É sempre bom rirmos de nossos ícones, de nosso mundo e, especialmente, de nós mesmos.

A seguir, o endereço do trailer oficial: 






sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O FILME DA MINHA VIDA


Falar a respeito de temas que não estão inseridos em nosso universo profissional é algo prazeroso. O descompromisso com o rigor técnico, a ausência do temor de alguma gafe ou o deslizar de opiniões conflitantes com as de quem é do ramo dão à gente um incontido prazer.

Não sou crítico de cinema e nem possuo formação para tanto. Apenas um cinéfilo que hipoteca suas emoções e algum feeling na apreciação das obras consumidas com gulodice.

“O Filme da Minha Vida” deve agradar qualquer um que esbanje sensibilidade e apreço à beleza. Pode ser também da vida de expectadores que tenham na delicadeza um objeto de admiração.

“O Palhaço”, segunda obra do diretor Selton Melo é um primor de delicadeza, espumando o belo em sua simplicidade, a emoção contida nos limites perfeitos e a atmosfera de delicada singeleza. Tudo isto com a leveza poeirenta das estradas de chão. As pitadas do humor às vezes insólito - e também delicado – servem de válvula para conter o tom emocional nos limites pretendidos. Uma obra prima.
           
Selton trouxe em “O Filme da Minha Vida” algumas dessas características, adicionando uma belíssima fotografia e um bom desempenho do elenco. Vincent Cassel, por exemplo, tem uma curta atuação, mas que se confunde perfeitamente com o que se esperaria do personagem.

Não concordo, data venia, com a opinião de um renomado crítico de cinema segundo a qual os personagens seriam arquetípicos, não conseguindo ultrapassar os limites de símbolos já produzidos internacionalmente.  O envolvimento entre a história, os personagens e a primorosa trilha musical, tudo sob o glacê da direção precisa aponta apenas para eventuais semelhanças, nada que comprometa o resultado final.

As locações, os constantes closes e a cor também fazem da obra um momento maravilhoso de nosso cinema que, há anos atrás não conseguia ultrapassar os limites da pornografia.

Gostei do filme e me tornei fã do Selton, tão brilhante na direção como na atuação em “O Auto da Compadecida”.

Também acho que atingimos mais um patamar de qualidade, rigor técnico e expressividade na sétima arte brasileira, o que cada vez mais me orgulha.


Assistam, prestigiem, deleitem-se.